domingo, 28 de maio de 2017

Amigos

Algumas pessoas estão nas nossas vidas sem a gente saber de onde vieram. Não me lembro ao certo quando o conheci - como um membro acronológico deste corpo (um braço que a gente usa mas nunca racionaliza a existência). Sempre esteve ali. Mas nos últimos tempos a urgência de uma amizade nos aproximou ainda mais, de forma que nossos pensamentos precisavam ser compartilhados como se armazenássemos o conteúdo de esquecimento do outro nas nossas próprias pastas internas. Nunca lidamos muito bem com o silêncio. Quando não havia o que compartilhar: um vácuo aflitivo. Percebi que eu procurava me manter mais culto sobre os assuntos do mundo só pra poder compartilhá-los. Livros, música clássica, geopolítica, arquitetura, dança contemporânea... E com o passar do tempo a frustração pelos assuntos sem vida me deixava desolado, árido. Já nesse momento percebi alguma perturbação entre nós, foi quando tomei conhecimento que as trevas nunca vem em conta-gotas. O escuro não aceita meio-termo. No inexorável momento de ausência comunicativa, sentados na cama do meu quarto, meus olhos que procuravam alento em qualquer coisa se alinharam ao rosto dele e foi como se pela primeira vez eu visse aquele desenho como uma entidade viva interdependente das minhas necessidades de completude.

Foram os olhos que me chamaram a atenção num primeiro momento. Tinham o formato de uma pequena semente com uma nódoa de galáxia dentro, pequenos e velozes. De concavidade larga e baixa, eram tão escuros quanto a mancha do cansaço que se pusera abaixo de suas pálpebras. Trespassavam a qualidade do sôfrego e misterioso, carregados de segredos que eu invejava conhecer. Talvez eu tenha falado muito de mim... As sobrancelhas se arqueavam, com uma leve falha na extremidade medial, qual uma fenda no gramado escuro. Grossas e firmes, tenazes. Alguns fios revoltos atrapalhando a simetria e lhe conferindo simetria. Na sua expressão facial não era incomum que elas se erguessem, causando pequenos dobramentos na pele acima numa de suas feições mais usuais: a de inquérito. Diminuía a distância entre a região e os cabelos, dando mais harmonia entre as proporções e distâncias do seu rosto. Os cabelos eram violentamente pretos, organizados num corte comedido com um topete dianteiro. Eram lisos - nunca gostei de cabelos lisos demais, não sabia identificar se o brilho era limpeza ou sujeira. Cobriam a parte superior das orelhas, propositalmente, pois tinha vergonha de umas dobrinhas assimétricas que elas possuíam (a falta de assunto de outrora chegou nesse tópico). O nariz era astuto e arrogante, com narinas tímidas mas o dorso proeminente. A boca era pintada num carmesim delicado. O lábio superior ascendia até às fendas em ângulos perfeitamente simétricos, finos; e o inferior era uma meia-lua mais preenchida de carne. Eventualmente ele os crispava mesmo sem ter o que dizer, bebericando a si mesmo com a língua cor de fogo. Os dentes raramente se mostravam. Era natural que ele deixasse a barba crescer, mas nesse momento estava sem ela, gramínea rala e falha, e pude reconhecer algumas pequenas cicatrizes atróficas aqui e ali. Tive vontade de passar o dedo em todas elas. Mas manteve o bigode, o que o deixava com uma expressão de falsa experiência, algo entre o pseudo vintage e o cabo-de-exército. A mandíbula era larga e a parte mais importante daquele rosto. Conferia o sabor do obtuso, ácido, fazendo o mais singelo sorriso de meio-lábio ter a força de qualquer expressão que ele desejasse causar. Arrepios, suspiros, urgência.

Eu não soube carregar o peso daquele silêncio. A situação limítrofe que nos colocou diante do abismo destampou algumas caixas de Pandora, suscitando elementos maculados que eu não permitiria vir à superfície nem se custasse minha vida. Evitava ao máximo sequer racionalizá-los, tamanha a covardia. Já não me preocupava mais em ter o que dizer, me concentrava em controlar a respiração entrecortada quando ele se aproximava, daquele modo cotidiano: sempre mantendo a boa etiqueta e seguindo os roteiros, ser meticuloso que era. Já eu, nunca liguei muito para os ensaios sociais, às mascaras de boa convivência, à mecânica que regia as etiquetas. Me isolei entre poesias românticas e músicas tristes, fiz outros planos mesmo sem o menor planejamento de executá-los, e em pouco tempo já não nos encontrávamos com a mesma frequência e havia um timbre de entendimento do fatídico quando nossos olhares se despediam. Fatigados, desiludidos.

A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Um abraço distante e comovido foi nosso adeus. A certeza de que não nos encontraríamos mais, senão se devotássemos o acaso. Mas também não queríamos nos rever. Na conclusão de que éramos, sim, bons amigos. Amigos sinceros.

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