segunda-feira, 18 de abril de 2016

Casulo


A verdade é que a medicina surgiu pra mim como uma indumentária de compensação. Eu queria usá-la como um tampão para mimetizar de alguma forma meus pecados, pecados que hoje não vejo com os mesmos olhos daquela época - tão assustados e enojados. Ora, eu, apenas uma criança... Que maturidade tem um jovem para decidir um futuro profissional inteiro? O rumo de uma vida? Claro que o que fazemos é utilizar como argumentação nossas mais abissais angústias, nossos mais assustadores pesadelos. Porque sobre minha cabeça havia apenas um desejo gigantesco de me impor, mostrar minha capacidade através do intelecto. Pelas palavras eu não seria capaz. Já haviam palavras demais vindas de todas as direções, ondas de todos os tipos, tantas opiniões fortes e personalidades já estabelecidas. E não percebia nenhum talento em mim. Eu era apenas um casulo! E quanto eu me pegava me questionando “quem sou eu?” experimentava uma das mais estranhas e vazias sensações. Ainda me sinto assim. Eu não conseguiria gritar, implorar por ajuda ou deitar a cabeça pesada no colo da Mãe e chorar aos soluços. No lugar, eu cerraria os punhos, a fronte. Estudaria com um grumo seco na garganta e certo de que, se tudo desse certo e no melhor dos cenários, eu só teria uma leve analgesia para um futuro certamente deplorável. Em que eu decepcionaria as pessoas próximas, arrancaria tristeza das figuras mais queridas e envelheceria completamente sozinho. Minguando.

As pessoas não entendem bem a homossexualidade nessa sociedade e falam disso de forma muito leviana, como se fosse uma escolha pessoal. Quando falam do assunto não se permitem alguns segundos para uma reflexão profunda, de empatia verdadeira. Existe um asco desmedido que é o óleo que faz girar as engrenagens desse roteiro tão mórbido. Sobre ser uma escolha - bom, uma escolha consciente não poderia ser, e inconsciente eu também acredito que não. Não há escolha no inconsciente, no fundo do oceano que a gente não alcança com essas boias baratas que usamos pra navegar. Como eu, na inocência tão bonita dos dez ou onze anos, poderia escolher sentir uma ereção totalmente involuntária pelos coleguinhas homens? Isso era tão absurdo como a chuva sair do solo em direção ao céu, tão absurdo quanto o fogo molhar a água. E nesse momento existe uma cisão primordial entre o desejo e o prazer que vincula o gozo à culpa, e sendo o gozo a nossa busca execrável enquanto vivos, no fim estabelecemos um contrato inexorável com a incompletude e a infelicidade. Afinal, que possibilidade existe de sermos correspondidos com qualquer migalha de amor? Cada tremor de excitação vem acompanhado pelo ácido toque da culpa. Cada masturbação antes de dormir não tinha o caráter principal de autoconhecimento, mas era sim um terror absoluto com o coração acelerado como se eu fosse o autor da morte de alguém, ou de uma família. Por que diabos eu nasci com essa maldição? Por que eu jamais poderia ser amado pelo que eu era? E os pensamentos de morte me sondavam, sim. E não estava apenas preocupado com a correspondência de um amor carnal, na verdade essa sempre foi a menor das problemáticas, mas principalmente pela não reciprocidade das relações familiares, de amizade e coleguismo. Decerto eu seria uma decepção, não importa o quanto eu adiasse isso. E não há espelho melhor para nossos anseios do que os olhos dos outros. O nosso reflexo são os olhos dos outros, existimos pelo olhar do outro. É uma ingenuidade tremenda achar que nos delimitamos por nós mesmos, que somos seres independentes de julgamentos... Por isso há tanto peso na opressão. A opressão nos desenha, e nos desenha com cicatrizes. Ou melhor, com feridas que nunca cicatrizam. Porque eu precisei anestesiar qualquer possibilidade de vivenciar o amor e toda relação eu transformava em profundas e complexas amizades. Entre alguns heterossexuais curiosos (que hoje se protegem com discursos de ódio) e outros homossexuais igualmente tristes, eu coletava algumas migalhas de afeto pra eu poder divagar mais tarde sobre futuros felizes que nunca, nunca aconteceriam. Meu espaço na vida das pessoas era sempre o de “amigo-psicólogo”, conselheiro, alguém que ocupava uma posição importante e privilegiada mas numa via unilateral que nunca vinha na minha direção. Lembro bem: nessa época eu tinha muita inveja da liberdade das nuvens...

Parecia simples a possibilidade de suprimir todos os meus desejos e estabelecer algum vínculo heterossexual para arrancar sorrisos e abraços com os três-tapinhas que carimbam o glorioso cumprimento das expectativas. Casar com uma mulher, ter filhos com ela. Hoje julgo isso tão absurdo, leviano, mas era o mundo pra mim naqueles tempos. Outra ingenuidade. Não existe nenhuma forma de silenciarmos por completo nosso desejo. E não podemos exigir isso de ninguém! Na verdade, não deveríamos ser submetidos a nenhuma tentativa nessa direção. Mesmo não tendo nenhum vínculo religioso importante e sendo criado com completa liberdade nesse sentido, é inegável como nesse cenário a demonização cristã do gozo aparecia de forma quase palpável. Ingenuidade. Ingenuidade... O desejo é uma entidade. Viva, pulsante, mutável dentro de certas possibilidades. Mas existe uma viscosidade que, ainda que lenta, permite que ele escorra por qualquer moldura que se tente imobilizá-lo. Era questão de tempo para que meu corpo se desprendesse dessas correntes que minha mente impôs (e essa dicotomia corpo e mente também se desconstruía ao mesmo tempo, se misturando no mesmo caldo que daria forma a qualquer coisa que sou hoje). Mas se as próprias relações dos adolescentes são inseguras e instáveis sobre os pretextos da “normalidade”, como imaginar algo saudável e não mutuamente sôfrego nessas condições tão inférteis? E aí, o que muitas pessoas possuem como memórias cheias de candura e saudade, se projeta na minha mente como arquivos que eu gostaria de apagar, se pudesse. E não existe essa possibilidade. Os casais vão se formando tão cedo na escola, as cobranças quanto às várias formas de virgindade se esgueirando pelos comentários mais inocentes. De forma que ano após ano eu comprava novas armaduras, me travestia de novas mentiras. Eu já estava acostumado a ser uma mentira com pernas. E se você é capaz de ler isso com algo além dos próprios olhos, vai sentir no fundo da garganta o quanto isso é profundamente triste. Dia após dia me levantar para novas farsas. Noite após noite me preparar para novas lágrimas...

Então não, não me venham com falácias. Ouço pessoas enchendo a boca para vangloriar-se de não ter preconceito nenhum e que entendem a situação e isso não é uma verdade, por mais bem intencionadas que elas possam ser. E mesmo nessas horas o egocentrismo é tão colossal que há mais uma preocupação em não levar o rótulo da homofobia do que em entender verdadeiramente a situação que a outra pessoa passou. Desconstruir-se de verdade. Não é verdade porque todo esse pano de fundo é impossível de ser visualizado com a empatia supérflua que somos ensinados a dedicar ao próximo. Não é uma questão individual. Mas do sistema, fruto coletivo e estrutural. Não pode ser verdade porque uma pessoa heterossexual, classicamente, por mais esclarecida que seja, não precisa olhar por quatro cantos com medo de apanhar enquanto anda de mão dada com a pessoa que ama. E eventualmente apanha e sente dor e sangra e morre! Não precisa viver com o manto da culpa, com o manto do “mas”, de ter que se provar, reprovar, de ter que se destacar de outras formas porque essa ponta solta arranha demais. Não deixa de ser chamada para sair com os colegas porque talvez as outras pessoas sejam incapazes de aceitá-las como são. Porque talvez os outros amigos não entendam. Não precisam passar noites de olhos abertos imaginando como os familiares e amigos mais queridos reagirão ao saberem a verdade sobre quem são. Mãe, preciso te contar uma coisa muito séria: sou heterossexual! Tsc. Não ouvem dos religiosos como sua existência é simplesmente errada, suja e pecaminosa, mesmo Jesus Cristo sendo escrito como um homem que abraçou os oprimidos, de prostitutas à leprosos. Eu tremia de medo ao dormir porque eu tinha medo de ser levado pelo capeta, porque meu destino seria ao lado de satanás, já que eu não conseguia lutar contra aquilo. Religiosos que vociferam prontamente os versículos mais escondidos da bíblia, mas não sabem amar o próximo e abraçá-lo como é, acabando, por fim, de nos retirar o direito até de experimentar verdadeiramente a fé. Podem sofrer vários dilemas próprios da atualidade, como os frutos da violência urbana, mas não unicamente por serem heterossexuais. E essas pequenas vivências dolorosas acontecem todos os dias, em quaisquer situações, durante toda uma vida. E sobre as tristes expressões como “opção sexual” e “ideologia de gênero” escondem a premissa básica e um erro fundamental de achar que no fundo toda essa tristeza é uma questão de escolha. Isso é absurdo! E quando vejo de outra forma, uma mais distante, de cima, os caminhos que a minha vida desenhou: percebo que todas as relações, destinos, tropeços e vitórias giram em torno dos nós apertados que minha sexualidade estabeleceu na minha personalidade e psique.

E daí que a medicina surgiu como uma compensação. Não era um sonho de infância, um campo florido com os cachorros travessos envolta dos filhos felizes e minha roupa branca e casta na busca infinda e altruísta de ajudar o próximo. Não, nunca foi isso. Era um teste, puramente egoísta, primordialmente autocentrado, de me estabelecer como pessoa de valor. Porque qualquer possibilidade disso me foi tirada ao longo da construção da minha identidade. De reconhecer minhas qualidades e potências, por mais estúpido e mesquinho que isso pareça. Mesquinho porque se eu pude ter acesso à medicina no ensino superior é porque tive condições de frequentar boas escolas. Meus pais priorizaram a educação e eu não precisei trabalhar, como várias crianças precisam. Fui privilegiado em vários aspectos. Se vivesse numa sociedade sem desigualdade, onde a população carente e negra tivesse o mesmo acesso e possibilidade que eu, duvido que eu seria capaz de passar sequer no vestibular. Não tenho a ilusão de muitos colegas desse estrelismo estúpido. Inclusive, foi na medicina em que conheci as pessoas mais ignorantes. Mas foi sim a forma que eu encontrei de respirar fundo, cravar minhas raízes e conseguir proferir com minhas próprias palavras: é... Eu tenho algum valor. Eu realmente existo.

O pensamento raso e romântico leva a pensar que eu não gosto do que faço e que serei um profissional frustrado. A direção é outra, viaja em outro rumo. A escolha foi tomada com os elementos mais intrínsecos do que eu sou, da fonte de onde vem toda a paixão que porventura foi reprimida ao longo dos anos. Vem do desejo que eu tinha das pessoas olharem para mim com mais candura, compaixão, amor. A escolha vem do que eu sou, do âmago de tudo. Do que eu sou! Dessa forma eu estabeleço como princípio me virar para os pacientes dessa forma, e não sentir a dor apenas intelectualmente. Estabelecer contato, vínculo sincero. Olhar para a vida de uma pessoa negra e pobre e deduzir que seus fantasmas jamais me assombraram e jamais me assombrarão. Entender os dilemas da feminilidade e não me permitir julgamentos rápidos e interpretações desonestas sobre as mulheres. Não interpretar as vivências das outras pessoas pelas lentes dos meus privilégios. Que talvez o verdadeiro fantasma seja uma pessoa na posição em que eu me coloco. E dessa forma busco levar mais humanidade e silêncio para uma profissão cheia de falas problemáticas, puramente técnicas e robotizadas, instituídas para que formas mais singelas de opressão se perpetuem.

Hoje eu entendo todas essas questões com mais maturidade e encontrei uma forma de experimentar a felicidade partindo de mim mesmo. Não peço pelo respeito das pessoas quanto a minha orientação sexual: eu exijo. Porque não acredito que eu tenho que me colocar numa posição de subjugação e clamar pela compreensão do próximo, pelo mais óbvio e negado fato: eu não tenho culpa de nada porque não existe nenhum pecado em ser homossexual. Se antigamente eu olhava com a estranheza as pessoas que se orgulhavam disso, hoje eu compreendo bem: permitiu por um lado que eu me construísse como alguém muito mais tolerante, de afeto mais fácil, e que experimenta o amor e o sexo com uma liberdade parecida com a das nuvens; de outro, me cimentou com uma armadura resistente aos mais diversos tipos de decepções e ofensas. Não me derrubo fácil. Choro pouco. Mas essa figura acanhada, triste, que mora nas sombras, cheias de medo e pavor do julgamento alheio ainda mora em algum lugar, eu não seria idiota nem desleal em ignorá-la. Em algum canto de olho, em algum abraço apertado, em alguma chateação meio sem razão. Isso nunca vai me abandonar porque vivemos num mundo absurdamente triste, que não dá espaço para que as pessoas experimentem e vivenciem sua sexualidade de forma plena e com a beleza do que é plural.

Mas persisto. Porque existo, e ninguém me tirará minhas convicções e conquistas, por menores e mais egoístas que elas sejam.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Papoula

Chegou e tão logo me deu boa noite avançou sobre meu corpo com um magnetismo mais forte que nós dois. Eu queria ter alguns segundos para vislumbrar aqueles traços retesados, esguios e perfeitamente assimétricos. Mas quando sua boca que era agora um sorriso de canto de lábio colou-se a minha, pálida e assustada, percebi que não. Eu não queria perder mais tempo. Eu não podia perder mais tempo. Cerrei meu punho ao redor do colarinho de sua camisa já desabotoada pela penúria do dia, fechei a porta ainda semiaberta atrás de nós e dei-lhe um beijo munido de toda a volúpia que eu era capaz. Meus lábios escavavam com uma sede desesperadora, mas as línguas dançavam sobre o fogo num misto de harmonia e a mais instintiva violência, que passamos a vida tentando conter com sabores diferentes de moralidade - mas ali, no mínimo espaço entre nossos corpos, esta agressividade torpe seria compartilhada e, sobretudo, presenteada. Seria o mais íntimo de mim que eu poderia oferecer. A consciência agradecida por não ser mais correnteza e adormecer num fluxo levado pelos corpos e somente por eles. E assim que suas mãos me pressionaram ao seu corpo o suficiente para revelarmos intimidades outrora tímidas mais abaixo, afundei as minhas (tão delicadas!) sobre seu pescoço gelado e seu cabelo em desgrenha. A energia agora nas mãos fazia viagem num relevo já conhecido, mas que ainda despertava o mesmo tesão da primeira vez. O mesmo desejo ilusório de conquista que temos com a geografia quando na verdade é ela que nos domina e molda. As camisas agora no chão e os troncos colados, a respiração ofegante e quase gemente saindo pelos poros, seus dedos enrolados ao meu cabelo eletrizado e longo em cascata enquanto lambia o espaço ósseo entre meus seios trêmulos e atritava os nossos paus. Já estávamos de encontro à parede e eu não me recordava como paramos ali, num espaço entre uma cômoda antiga e a quina, e invejando essa quina, na ânsia de cabermos juntos e compressos e empacotados e fundidos em qualquer coisa que nos tornasse um. E ali eu já lhe explorava com a mão dentro de sua cueca o âmago de toda aquela excitação, da cabeça à raiz, e mais abaixo onde tudo nasce, e além, e me deliciava com a sinfonia dos seus gemidos como uma maestrina orgulhosa de sua obra suprema. Mandei-o tirar o resto de roupa restante, mas ele retirou as minhas peças primeiro, num desacordo pueril. Virou-me de costas para ele e me provocou com sua arma que deslizava acima do alvo - do tão precioso, aclamado e repetido alvo -, enquanto mordiscava minha orelha e apertava minhas nádegas o suficiente para eu saber que deixaria o vermelho impresso. Eu não me importava. Adorava. Ainda assim, uma inquietação nova nascera em mim de forma repentina, como o segundo fatal e milagroso em que uma semente se abre à existência. Nesse mesmo tempo, onde o tudo e o nada coabitam, um ímpeto extasiante me fez empurrá-lo à cama com uma força que eu não me julgava detentora. Ele caiu de costas, me desviando um olhar assustado e curioso. Eu me aproximei e pude ler suas esperanças: que eu me ajoelhasse para chupá-lo ao pé da cama e depois sentasse em cima dele, me virasse, e me virasse, me virasse, me inventando novos formatos para o mesmo. Não, não que eu estivesse descontente. Mas a semente viajou no tempo e já está árvore, e nessa árvore há só uma flor, e a nova flor é o novo de mim. Solitária, mas viva! Virei seu rosto e seu corpo, e ele estava de costas. Ah, como é bom ver um homem de costas. Podia sentir o seu soslaio inquiridor e eu respondia com um sorriso tenro. E no silêncio daquela situação execrável entre nós, senti que ele vislumbrava esse novo nascimento com pavor imiscuído em aceitação e a ternura própria que o amor provê, e tão de imediato ele fez a assertiva com a cabeça, eu me aproximei, vesti a camisinha e o coloquei de quatro. Afastei suas nádegas e pude ver, de cima, o caminho. O cu nos unifica. A todos nós. Revela que; independente de toda bobagem biológica, genética e constitucional, todos podemos ser penetrados, preenchidos ou até violados. Eu iria apenas preenchê-lo, e preenchi. Penetrei com toda a minha feminilidade e rasguei as amarras dos preceitos que nos prendiam, os limites cerceadores da compreensão do gênero e meus próprios limites. Agora os gemidos eram altos e eu me encurvava sobre o seu corpo, cavalgando com firmeza e em velocidade progressiva enquanto o masturbava. Ele queria mais. Virou-se, apoiei suas pernas entreabertas sobre meus ombros e recomecei, sem delongas. Suas mãos apertavam o lençol desenhando a linha tênue que faz estrada entre a dor e o prazer. Segurei suas mãos e o fitei com o sorriso mais bonito que eu era capaz. Naquele momento, de todas as formas que eu poderia imaginar, nós éramos dois: éramos um. E gozamos. 

domingo, 11 de maio de 2014

Sobre mensurar o infinito


Você se deitou ao meu lado, esgueirando seu corpo pela grama. E ali ficamos. Sua mão encontrou a minha e cerramos os punhos num só. Os ombros se tocaram e se aqueceram. Eu podia ouvir o som da sua respiração e sentir seu cheiro. Olhei para você. Você sorriu de volta. Te toquei o nariz com o nariz. Nos selamos.

Era noite. Atrás de nós, nada. À frente, nada. O som de um piano antigo reverberava nas quinas do mundo e vinha. O horizonte era apenas um tapete negro. E brilhos de estrelas eram pontos e holofotes. Falávamos sobre a possibilidade de constelações e tentávamos apontar para centros luminosos específicos, em vão. Rimos sem motivo. Te puxei para cima de mim, te envolvendo com meus braços meio trêmulos. Te beijei. Por minutos? Lhe disse sobre como é perfeito te amar, e o universo e seus astros. Sobre o mundo e sua beleza, a sua. Adormecemos. Você dormiu primeiro.

Amanheceu. Quando abri os olhos, seu rosto estava parcialmente iluminado por um tímido raio de sol incapaz de aquecê-lo. Não contive o suspiro da completude. Toquei seus lábios e você não percebeu. No céu, as nuvens desenhavam queijos e aves. Caminhavam tranquilas, enquanto se fundiam e se despediam. Desapego que não possuo. Queria tocá-las, subir até elas com você. Sem que eu me desse conta, minha mão em vida própria estava acariciando seus cabelos. Acabei por te acordar. Você não reclamou. Abriu os olhos lentamente, trôpego. Bocejou. Me desejou bom dia. Eu não disse nada, apenas sorria. Não me cabia em nada, tampouco em palavras. 

O sol se retirava. Eu estava sentado, você falando sobre viagens, planos e o destino. Imensidões e incertezas. Sua cabeça deitava-se na minha perna enquanto eu olhava para baixo para te ver. O céu sangrava. Eu não fazia questão de viajar, nem reclamaria da pequenez que me embriagava. Ali me parecia muito bom. Limpei as tiras de grama que se escondiam nas suas vestes. Te beijei com a intensidade do fogo. A força da brasa. Deitamos pela curiosidade da volúpia, a terra era gelada. Estávamos quentes. No pé do seu ouvido, repeti o quanto te amo. Nos selamos de novo, e para sempre.