segunda-feira, 5 de março de 2018

O Tarô e o Caminho da Individuação

The Fortune Teller

Não é por acaso que os 22 Arcanos Maiores do Tarô são numerados. Suas cartas, perfiladas tal qual os capítulos de uma novela, retratam uma história verdadeira: a do ser humano em sua senda iniciática, repleta de experiências transcendentes e desafios que se nos apresentam como oportunidades para o autoconhecimento.
Desde a antiguidade, espalhados por distintas culturas, incontáveis são os mitos que abordam a imagem do homem colocado à prova, chamado a enfrentar perigos e resolver enigmas, a ultrapassar seus próprios limites e escolher o rumo certo nas encruzilhadas do caminho.
Foi o médico psiquiatra suíço Carl G. Jung (1875-1961), inicialmente seguidor de Freud, e que desenvolveu sua própria teoria para a compreensão do psiquismo, a psicologia analítica, quem cunhou o nome de “individuação” para esse processo ininterrupto de aprimoramento pessoal, destinado a orientar a personalidade para algo maior e transcendente, a cumprir psicologicamente o mesmo papel a que se destinavam os rituais de iniciação dos povos antigos.
A questão fulcral da psicologia junguiana esbarra num dos principais mistérios da existência, o da consciência em busca da fonte primordial, inconsciente em sua essência, de onde se desprendeu originalmente. Para Jung, o ego poderia ser comparado ao inconsciente na mesma proporção que uma ilha estaria para o oceano à sua volta. Outra analogia seria a do planeta Terra, pequenina morada da civilização humana (a consciência), comparado ao universo desconhecido no qual estamos inseridos (o inconsciente).
Jung chamou de ego o núcleo da consciência, sendo a individuação toda a busca empreendida por esta diminuta instância em direção ao presumido centro da totalidade psíquica, a abranger obviamente o mundo inconsciente. Ao ponto de fusão entre consciência e inconsciente, núcleo da personalidade total e ao mesmo tempo passagem para uma dimensão transcendente e coletiva, espécie de porta para o psiquismo universal, Jung denominou de Selbst, em inglês self, que em português melhor ainda se traduz por “si mesmo”.
O si mesmo seria o órgão regulador de todo o psiquismo, dotado de qualidades abissais que ultrapassam as dimensões do simples ego. Paradoxalmente, o si mesmo, ponto central da psique, preenche toda a sua circunferência, abarcando todos os fenômenos anímicos possíveis, a incluir portanto, os do próprio ego. Nicolau de Cusa, monge filósofo do século XV, já usara imagem semelhante ao referir-se à onisciência divina: “Deus é uma esfera cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não se delimita em parte alguma”.
As alegorias dos 22 Arcanos Maiores, ainda que veladas por intrincado hermetismo, de caráter particularmente medieval no baralho de Marselha, representam nada mais que as situações comuns, reservadas a todos aqueles que se dediquem a explorar seu mundo psicológico mais profundo. Os que partem em busca de si mesmos em geral abrem suas vidas para o amadurecimento pessoal, e sofrem experiências consideradas arquetípicas, de cunho propriamente iniciático.
Arquétipo é palavra de origem grega, primeiramente usada por Platão, a significar “padrões arcaicos” (arqui = antigo, arcaico + typos = padrão, matriz), e Jung se valeu do termo para denominar certos padrões registrados no comportamento da humanidade, que vêm sendo manifestos ao longo de sua história pelas mais diversas culturas. Embora semelhantes entre si, expressam-se pela variedade dos mitos, religiões, lendas ou folclore; e através de padrões também identificáveis em nosso mundo onírico, quer no cerne de nossos sonhos, quer sob a forma das fantasias.
O arquétipo serve, portanto, como matriz comportamental herdada por todo ser humano, como arcabouço capaz de selecionar nas experiências da vida os elementos significativos que estejam em sintonia com o processo inato da individuação. Os arquétipos, verdadeiras potências imateriais, surgem como entidades impalpáveis e incognoscíveis, mas se manifestam por meio de idéias e imagens, e vestem-se com as mais distintas roupagens de acordo com as culturas que os representam.
Neste sentido, o Tarô os simboliza amplamente, e um mergulho no mundo dos Arcanos permite-nos espelhar nossa alma. Por isso a “leitura” das cartas, quando contemplativa e dinâmica, bem pode transportar-nos para um mundo psicológico mais profundo. Percorramos juntos então, passo a passo, esta estrada pictográfica da individuação.
Comecemos pela especial figura do Louco que, exceção à regra, não se mostra numerada. O Louco, por não ter um número que lhe determine a posição, acha-se livre para ser notado em qualquer parte da jornada, podendo assumir diferentes valores em nossa vida; daí talvez ter sido preservado sob a efígie do curinga nos baralhos mais comuns. Preferencialmente o colocamos entre o tudo e o nada de Pascal, isto é, simultaneamente ocupando o início e o fim da jornada. Feito Jano dos romanos (a divindade de dois rostos que nunca se olham, voltados que estão para lados opostos), é O Louco quem sabe do porvir tão bem quanto do passado, já que se acha situado antes do primeiro Arcano, O Mago, ao mesmo que ocupa tempo posição após o último, O Mundo. O Louco confere assim ao conjunto um caráter rotativo e perene. Ao assumir duplo papel de fechar e (re)abrir o ciclo, promete a continuidade da individuação. Representa ainda uma força inconsciente, não personificada, por isso sem número, e a figura de bobo da corte expressa a ambivalência de sua função, já que os tais bobos medievais, antes de idiotas, eram sábios, quiçá os únicos capazes de falar verdades ao rei sem o risco de perder a cabeça.
O Louco nos prende assim em sua mágica, na paradoxal leitura de seu sentido. Se pode ser visto como um bobo que nada sabe sobre si, caminhando a esmo, por outro lado é ele o sábio que, tendo mergulhado no abismo de si mesmo, ressurge renascido, disposto a retomar sua senda. E não há monotonia nem repetição nesse processo; embora as experiências mais fortes sejam arquetípicas, elas são inusitadas no modo como acontecem e nos propiciam leituras sempre novas do livro da vida. Também os passos do Louco nunca são lineares, pois a individuação pressupõe voltas e rodeios até que nos aproximemos do si mesmo, ou até que tropecemos em algo e caiamos dentro dele.
A carta seguinte, O Mago, é a consciência personificada. Resulta da transformação do impulso inconsciente do Louco, agora direcionado conscientemente para o trabalho da individuação. Decididamente, O Mago é o grande herói desta jornada (ele é cada um de nós), pois a cada passo nos transformamos, conforme desfilamos pela “estrada real” dos Arcanos. Ele está em pé, é portanto ativo; e, feito aprendiz de feiticeiro opera na mesa à sua frente. Um de seus braços aponta para cima, o outro para baixo, como se nos lembrasse da primeira máxima de Hermes Trimegistrus, a ensinar que o nível humano da existência apenas reproduz o plano cósmico da vida; que somos sim manifestação da divindade, mas nem por isso privilégio algum da natureza. O homem precisa trabalhar com o que tem às suas mãos e intuir acerca do universo à sua volta para que venha a compreender-se.
Consoante os preceitos básicos da magia, O Mago posiciona-se como elo entre os planos humano e divino, surge como centro e medida de todas as coisas. Quatro objetos, dentre outros, despertam-nos a atenção. São eles a moeda e a baqueta que traz em suas mãos, além dos copos e da adaga postos sobre a mesa. Aludem claramente aos quatro naipes do baralho, ouros, paus, copas e espadas, que representam a inteireza do caminho ora descortinado. Isto porque o 4, assim como o 12, são números que por excelência expressam a totalidade, haja vista serem quatro as estações do ano e doze o número de seus meses, também as constelações do zodíaco por onde o sol passeia ao longo de um ciclo. Quatro e doze sempre nos dão a idéia de algo completo.
Jung escolheu as mandalas (nome sânscrito a designar “círculo mágico”) como símbolos da integridade psíquica, visto que são geralmente representadas por formas circulares (ou outras que insinuem a presença de um centro); de mesmo modo podemos perceber em cada um dos 22 Arcanos uma mandala oculta. No Mago ela se mostra tanto pelos instrumentos dos quatro naipes citados como pela mesa de três pés e quatro cantos, números estes cujo produto nos leva ao 12. É como se O Mago já tivesse diante de si o tesouro que deseja encontrar pelo caminho, o que, aliás, lhe permite seguir viagem mesmo que não saia do lugar onde se encontra, até porque a individuação é processo essencialmente espontâneo de nosso psiquismo.
Pois bem, tendo à frente uma senda que se desdobra em quatro caminhos, O Mago, resoluto, entende que precisa percorrer simultaneamente todos eles, sob pena de nunca alcançar a transcendência, razão pela qual se divide ele próprio no quatérnio que lhe sucede, formado pelos próximos quatro Arcanos, A Papisa, A Imperatriz, O Imperador e O Papa.
Estes representam uma diferenciação a mais da “ciência dos opostos”, já insinuada pelos braços do Mago que ligavam o em cima ao embaixo. Observemos que as quatro cartas se casam muito bem, são duas figuras femininas e duas masculinas; há da mesma forma uma dupla de imperadores e outra de sacerdotes; e é no equilíbrio de cores de suas vestes que o baralho de Marselha oculta outros mistérios. O detalhe mostra que as mulheres vestem mantos azuis sobre os vermelhos, ao passo que os homens trazem a composição contrária, com vestes vermelhas por cima das azuis. Aqui as cores também têm significado; o vermelho associa-se ao lado consciente, ao aspecto racional do psiquismo. O azul representa o inconsciente, a irracionalidade, os processos intuitivos de percepção.
Nas personagens femininas (A Papisa e A Imperatriz), a intuição prevalece sobre a razão; já na dupla masculina (O Imperador e O Papa), são os processos racionais que estão por cima. A psicologia analítica identifica, além disso, tanto o aspecto feminino no interior do psiquismo masculino, ao qual Jung batizou de anima (no caso, definido pela Papisa), bem como a relação contrária, a essência masculina no psiquismo feminino, denominada animus, no Tarô, melhor representado pelo Papa.
A Papisa é antes de tudo o complemento do Mago. Guarda tudo aquilo que lhe falta, sendo portanto o verdadeiro motor de sua busca. Se o mago é movimento, ela é repouso; se ele é ativo, ela é a receptividade em pessoa. Ele é ação; ela, reflexão. Em suma, todo o desenrolar do baralho a partir do Mago é a Papisa, pois tudo aquilo que estiver em seu caminho servir-lhe-á como complemento. A relação Mago-Papisa no Tarô é correlata do binômio Yang-Yin dos chineses; aliás não poderia faltar no esoterismo do Ocidente o arquétipo da “ciência dos opostos”.
Havendo o Mago experimentado das diferentes maneiras de perceber o mundo, e consciente da natureza interminável de seu caminho, pela primeira vez tem nítida noção das dificuldades que ainda enfrentará. Sua determinação estará sempre à prova.
Na situação arquetípica sucedânea, o herói depara-se com a encruzilhada do Enamorado, quando se encontra dividido entre duas mulheres que cobram dele uma escolha. A que está à sua direita, para a qual ele volta sua face, toca-lhe o ombro, e veste roupas predominantemente vermelhas. Representa a via racional. A outra moça, aparentemente mais jovem, vestindo principalmente o azul, toca-lhe o coração, como se quisesse despertar suas emoções, seu lado intuitivo. No alto, acima da cabeça do herói, em instância que transcende sua consciência, um anjo direciona sua seta para a via intuitiva, como se quisesse orientá-lo em sua escolha. Enfim, aí está representado o drama do livre arbítrio, capaz de atormentar a consciência com o conflito da eterna dúvida. O personagem acha-se cruelmente dividido entre o racional e o intuitivo, observe-se suas roupas listradas de azul e vermelho, além do amarelo, seu aspecto pessoal. Mas pouco importa por onde seguirá nosso herói, até porque razão e intuição encontram-se mescladas em todas as experiências da vida, apenas predominando ora esta, ora aquela. O principal é que o herói dê seu próximo passo, para que não reste estagnado em seu caminho. Siga por onde seguir, desembocará na tríade seguinte, O Carro, A Justiça, e O Eremita.
Decidindo prosseguir, O Mago experimenta a extroversão das conquistas rápidas, simbolizado pelo Arcano VII, O Carro. O primeiro terço das 21 cartas numeradas se completa. O Mago está emancipado. Destemido, deixa de ser mero neófito para amadurecer na senda, e mediado pelo senso da Justiça, virtude que será assimilada no Arcano subseqüente, chega à condição de maior introversão e capacidade introspectiva, quando descobre que há sabedoria em seu próprio poço, a ser buscada por um processo sereno e cuidadoso, como o faz o velho Eremita.
A carta X, A Roda da Fortuna, traz as vicissitudes da vida, com seus rodopios e reveses. O herói deve afinal saber tirar proveito do movimento do cosmos. “Há nas lides do homem uma maré que, se aproveitada enquanto cheia, o levará à fortuna”, diria Shakespeare.
No Arcano XI, A Força, alcançamos a metade do caminho, mas prosseguem as vicissitudes, até que O Mago perceba que, invariavelmente, ações sutis repercutem melhor do que as atitudes brutas, como nos mostra a figura intuitiva da vestal, que sob um manto azul, domina com suas delicadas mãos toda a brutalidade duma besta-fera, contendo-a pela mandíbula. A fera ocupa a metade inferior da carta, e não fosse sua cor distinta, estaria misturada ao hábito da personagem. Representa os processos instintivos, aspectos brutos que esperam ser dilapidados e transformados em algo mais sutil.
Os dois Arcanos seguintes nos trazem a experiência da morte. O Enforcado é ela própria, em seu sentido terminal. A lâmina mostra o herói dependurado, de cabeça para baixo, vendo a vida por seu outro ângulo, ou como se estivesse num ataúde, cercado por terra e troncos, os dois verticais com seus doze ramos podados, a representar o esgotamento da mandala, a morte aparente do dinamismo psíquico. Mas o herói, se sobrevive à força perturbadora deste arquétipo que dele exige sacrifícios, comunga pela primeira vez com o mundo transcendente, representado pelo Arcano XIII. Por ser o único sem nome, nem deveria ser chamado Morte. O esqueleto que ceifa sugere transformações substanciais, a troca do velho pelo novo. É um momento iniciático de fértil aprendizagem, representada pelos arbustos em quantidade que brotam neste novo campo da existência. Afinal, o 13 expressa o rompimento da mandala, a transposição da ordem; a soma de 1+3, entretanto, leva-nos de volta ao 4, à mandala de uma nova dimensão.
O Arcano XIV, A Temperança, é a terceira das quatro virtudes medievais a estar representada no Tarô. As outras três, já vistas, são a justiça (Arcano VIII), a prudência (Arcano IX), e a força (Arcano XI). Este tema é chave dos alquimistas, e o segundo terço se completa com o Mago promovido à esta condição. A Temperança se (re)vela no equilíbrio parcimonioso de seu movimento, e a figura feminina aqui traz azul e vermelho em iguais proporções.
Uma vez feito alquimista, pode agora nosso herói experimentar as provações mais duras, reservadas aos que penetram no Diabo, Arcano XV, ou na Casa de Deus, Arcano XVI.
Tais estações referem-se ao mundo sombrio, aos aspectos mais críticos de nossa personalidade, produtos que são de partes pouco exploradas ou desconhecidas de nós mesmos. O demônio nada mais faz do que escravizar a nossa consciência, prendendo-a em seu altar, exigindo de nós o auto sacrifício da extinção de nossas buscas. É por meio dele (o intelecto) que nos sentimos separados da fonte primordial. Por conta dessa mesma consciência é que podemos refletir acerca da única certeza que temos, a de nossa morte, de onde nasce uma natural angústia capaz de nos prender em temores pessoais. O Mago descobre que a única forma de evitar o demônio é enfrentá-lo! Se por um lado não devemos negar os méritos de nosso intelecto, por outro, de alguma forma, precisamos transcendê-lo.
A Casa de Deus é o arquétipo da destruição, das mudanças avassaladoras em nossas vidas. Por vezes, somente algo assim tem força capaz de nos arrastar para longe do Diabo que antes nos prendia. A Torre fulminada mostra o ego abalado pelo grito de um inconsciente incontido, simbolizado pela labareda de fogo que explode a cúpula da Torre, cuja forma lembra uma coroa, real adorno de uma consciência que se esquece muitas vezes de perceber a realidade por detrás da realeza.
O Arcano XVII, A Estrela, nos entrega à esperança. Revela à consciência libertada que a individuação continua a ser possível. Ao menos é o que representam as luzes que brilham no firmamento. A jovem desnuda não é outra senão o nosso herói, despido dos valores mundanos, a verter no rio do inconsciente coletivo suas próprias águas (azuis) de seu mundo intuitivo, de seu inconsciente pessoal. As estrelas no céu simbolizam as almas já individuadas. Pela primeira vez os 4 elementos se agrupam numa mesma lâmina: água, fogo, terra e ar estão aí representados, este último reafirmado pela presença do pássaro, símbolo da alma inclusive. De novo descobrimos a mandala disfarçada.
A Lua, Arcano XVIII, representa as trevas, os porões da alma; na psicologia junguiana será chamada de sombra. A sombra representa o lado oculto do psiquismo, fonte de inúmeros perigos e potenciais que jazem adormecidos. As trevas psicológicas apresentam sérios desafios à nossa frágil consciência, que precisará pedir ajuda à intuição para vencer a provação noturna. A Lua é receptiva, absorve a energia (as gotas) do sistema, e demarca a aproximação entre consciência e inconsciente, aqui representados pela duplicidade de símbolos, dois lobos a serem vencidos e dois templos a serem alcançados. Jung admitia que quando os símbolos se duplicavam em nossos sonhos, provavelmente estaria havendo a assimilação de valores inconscientes por uma consciência que se aprimora.
Vencida a noite negra, o Sol do Arcano XIX é quem traduz o momento áureo da jornada, quando a consciência comunga do si mesmo, inspirado instante em que ela se ilumina. A energia agora se espalha pelo sistema, e as duas crianças (consciência e inconsciente) que se tocam para cá do muro que antes as separava, descobrem-se idênticas, visto que nenhuma diferença deveria mesmo haver entre instâncias de um mesmo psiquismo. No contato mútuo das crianças, a ponte para o si mesmo se apresenta, e a iluminação preenche esta mandala.
Mas não por isso o caminho chega ao fim. Restam ainda a análise e a síntese alquímica do processo, previstos pelos últimos dois Arcanos, O Julgamento, XX, e O Mundo, XXI. Juntos simbolizam o ajuste da mandala pessoal, momento em que o herói procura reorganizar seu mundo psicológico, transformado que está por tudo aquilo que sofreu. No Mundo, a síntese (a mandala) se define claramente. O herói está liberto no núcleo da carta, em sintonia com o universo à sua volta. As figuras nos quatro cantos da carta são alusão aos quatro naipes em que se desdobra o baralho. Mas o Mundo é apenas o fechar de um ciclo. Serve para impulsionar o herói, nós mesmos, para frente. Afinal, somos sábios apenas em relação àquilo que vivemos, e completamente Loucos frente ao que nos é desconhecido.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Tristão e Isolda

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Quer ele vê-Ia feliz ao lado do seu novo marido? 

Pode parecer uma pergunta ingênua, mas se Tristão afirma ser motivado pelo "amor", a pergunta cabe. E mais tarde ele diz: "Quero morrer, mas que a rainha saiba que é por seu amor que morro. Se ao menos eu pudesse saber se ela sofre por mim como sofro por ela!" Que tipo de "amor" é esse que leva Tristão a desejar não a felicidade da amada, mas o seu sofrimento? Se ele acredita que ela se reconciliou com o passado e está feliz com o Rei Mark, por que vai ele voltar lá para jogar lenha no fogo da paixão? Por que ele procura renovar - lhe o sofrimento, atrapalhando sua vida com o Rei Mark? E quanto a Isolda? Que amor é esse que a leva a desprezar Tristão porque ele se casou com outra mulher? Isolda é casada com o Rei Mark e vive com ele. No entanto, por esses estranhos padrões, Tristão não pode casar-se com outra mulher, não pode amar nenhuma outra mulher; e, acima de tudo, ele não pode ser feliz. Se ele fizer uma que seja dessas coisas humanas normais, então ele é um "traidor" para Isolda a Bela! Que espécie de "amor" faz com que Isolda queira ver Tristão sempre só e infeliz, sem uma esposa, sem um lar, sem filhos? Isso não é amor. O amor é um sentimento dirigido para um outro ser humano, não dirigido para a própria paixão. O amor deseja o bem-estar e a felicidade da pessoa amada e não aquele drama enorme que se faz às custas do outro. Ainda assim, estranhamente, Tristão e Isolda chamam a isso "amor". 

Pelos padrões humanos está tudo invertido: eles se "amam", mas cada qual quer que o outro sofra, que seja infeliz. Eles falam de "traição", mas para eles "fidelidade" mútua pressupõe que o marido de uma ou a esposa do outro sejam traídos. Eles se recusaram a construir uma família e a levarem juntos uma vida humana normal, e nenhum permite que o outro consiga fazer isso com alguém mais. Tudo isso não chega a ser realmente novo para nós. Já vimos pessoas "apaixonadas" agirem dessa forma. A grande maioria dentre nós já viveu essas mesmas atitudes contraditórias. Às vezes conseguimos ser ligeiramente mais sutis, mas no mito o paradoxo aparece dessa forma tão gritante porque a mensagem brota nua e crua diretamente do inconsciente. O maior dos paradoxos é o próprio amor romântico: como um conjunto de procedimentos, ele é a fonte de onde emanam todas essas contradições. O amor romântico é a mistura profana de duas espécies sagradas de amor. Um é o amor divino do qual já foi falado: é o impulso natural que nos leva para o mundo interior, é o amor que a alma sente por Deus, ou pelos deuses, ou pelas fantasias e desejos. O outro é o amor "humano", o amor que sentimos pelas pessoas - seres humanos de carne e osso. Ambos são válidos, ambos são necessários. Mas, por algum artifício da evolução psicológica, nossa civilização misturou os dois tipos de amor na poção do amor romântico e quase pôs ambos a perder. 

O melhor do romantismo e do amor romântico é que são tentativas válidas para devolver à consciência ocidental o que havia sido perdido. O romantismo procura restaurar o sentido do lado divino da vida, a vida interior, o poder da imaginação, o mito, o sonho, a fantasia. A tragédia, que essa parte da nossa narrativa mostra, é que usa-se mau o ideal do romantismo, situa-se erradamente o amor divino, e neste processo acaba-se destruindo nossos relacionamentos humanos. Chamam de "amor" o que não é amor, invertemos o significado de "fidelidade", e perseguimos uma imagem idealizada, efêmera, da anima, em vez de amarmos um ser humano de carne e osso.

À medida que se examina algumas das terríveis complicações da tragédia em que se transforma "Tristão e Isolda", precisa-se lembrar que o amor romântico é um estágio necessário de nossa evolução psicológica. Não importa o que possa ser dito contra ele, não importa o que tenha que ser feito para consertar nosso relacionamento com ele, é o nosso caminho: a nossa maneira ocidental de evoluir e purificar essas duas espécies de amor foram misturados na poção mágica. O amor romântico é como o "túnel do amor", não podemos ficar empacados lá dentro no escuro, temos de sair do outro lado e resolver o paradoxo. Mas para os ocidentais parece ser necessário entrar no túnel. A única maneira que conhecemos de encontrar o sentimento, de enfrentar os dois grandes tipos de amor, é nos "apaixonando", é nos torturando pelo paradoxo, para então enfim aprender. Na medida em que formos avançando, e expondo as contradições, e desmascarando as ilusões, lembremo-nos de que a questão não é saber se devemos louvar o amor romântico ou condená-Io, se devemos conservá-Io ou jogá-Io fora. Nossa tarefa é fazer dele um caminho para a conscientização, viver honestamente o paradoxo e aprender a respeitar os dois mundos que existem no amor romântico: o divino, de Isolda a Bela, que Tristão persegue; e o humano, de Isolda das Mãos Brancas, que ele rejeita.

Tristão nunca chega a ter um relacionamento humano com Isolda a Bela, nunca assume os compromissos do dia-a-dia de uma vida estável, para que possam encontrar o calor humano e o companheirismo que tanto necessitam. É espantoso constatar isso quando se pensa em todos os dramas e aventuras pelos quais eles passam. Encontram-se secretamente, assumem riscos inimagináveis, são arrastados ao cadafalso, fogem e continuam seu drama na Floresta de Morois - lutando com a natureza e com os inimigos. Tudo isso, no entanto, não pode nunca traduzir um relacionamento humano!

Um dos grandes paradoxos do amor romântico é que ele jamais cria um relacionamento humano enquanto permanece romântico. Ele cria drama, aventuras ousadas, cenas de amor ardentes e maravilhosas, ciúmes e traições; mas parece que as pessoas nunca se decidem por um relacionamento próprio de seres humanos de carne e osso até que superem o estágio do amor romântico, e passem a se amar em vez de se apaixonar. Isolda a Bela é a anima. É o amor divino que Tristão procura nela; inconscientemente, ele procura uma passagem para o mundo interior. Tristão não consegue ter um relacionamento humano comum com Isolda a Bela porque ela é desejo divino e deve ser vivida como um elemento interno, um símbolo. Quando Tristão parte da Cornualha, deixando Isolda com o Rei Mark, ele cai em desespero, crê que está abandonando a anima, literalmente personificada numa mulher mortal, exatamente como fazem todos os homens quando "apaixonados". Do ponto de vista de seu ego, a vida não tem mais sentido, pois ele acha que este sentido somente pode ser encontrado em Isolda a Bela. "Separados, os amantes não podiam nem viver nem morrer, pois que era vida e morte ao mesmo tempo, e Tristão buscou refúgio para as suas mágoas nos mares, ilhas e terras estrangeiras." E assim, chega-se à famosa pergunta de Tristão: "Será que jamais encontrarei alguém que ponha um fim à minha tristeza?" Embora para o seu ego pareça a morte, o destino o conduz em direção à própria vida! Pois a tranquila e despretensiosa mulher que o aguarda no Castelo de Carhaix é a encarnação da vida humana: ela é Isolda das Mãos Brancas, Isolda da Terra. Como Tristão, tem-se esta Isolda com um fardo de preconceitos, com a lealdade já comprometida anteriormente. 

O simples não é bem vindo: "simples" significa monótono ou obtuso ou estúpido. Nós nos esquecemos de que a simplicidade é uma necessidade da vida humana: é a arte humana de encontrar sentido e alegria nas coisas pequenas, naturais e corriqueiras. No seu nível mais elevado, é a consciência que vê através das confusões que são inventadas, encontrando a realidade essencial e singela da vida. Mas em nossa época, temos um preconceito coletivo contra Isolda das Mãos Brancas. 

Se um relacionamento direto, simples e espontâneo nos oferece felicidade, dificilmente é aceito. É "simples demais", "monótono demais". Indivíduos estão condicionados a respeitar apenas o que é exagerado "pomposo, o que é grande, complicado ou "altamente excitante". A verdadeira tragédia de Tristão e Isolda está oculta num lugar quieto e humilde, onde as pessoas não estão acostumadas a olhar, e não é a morte de Tristão, pois todos os homens morrem. 

A tragédia de Tristão é que ele se recusa a viver enquanto ainda está vivo, e assim ele não tem vida humana ou valor humano. 

A história de Isolda das Mãos Brancas é a história da oportunidade perdida por Tristão quando deixa de descobrir que existem duas espécies de amor e duas espécies de relacionamento: um com a anima, no interior, e outro com a mulher, no mundo físico. Cada qual é distinto do outro e cada um tem seu próprio valor, mas se Tristão, como nós, tivesse uma segunda chance, ele aprenderia com Isolda das Mãos Brancas ao invés de rejeitá-Ia. Ele poderia aprender que o significado da vida não é encontrado apenas na busca do seu ideal interior; ele também pode ser encontrado na mulher física com a qual vive no castelo de Carhaix.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Testemunha



Era um domingo pela manhã, e o mar brilhava. Mas não brilhava da mesma maneira uniforme e lisa; ao contrário, grandes zonas iluminadas viajavam na superfície ondulada pelo vento, contrastando com a sombra que os rochedos da ilha projetavam n'água. Algas arrancadas das pedras pelo último temporal, rolavam nas marés intermitentes - e as gaivotas, há tanto tempo desaparecidas do céu imenso e branco, surgiam de novo barulhentas enchendo o ar de gritos rápidos e cortantes.

O piquenique fora combinado para depois da missa, e junto à palmeira designada para o encontro - a mais antiga, meia curva, com um tufo roxo de parasitas sobressaindo dentre os espinhos negros - duas das minhas companheiras já se encontravam. De longe, vi os seus claros vestidos correndo, saltando, na estonteante alegria que nos vinha talvez da maravilhosa paisagem.

- Liz! Liz! - gritaram assim que me viram. - O que você trouxe para o nosso almoço?

E, sem esperar resposta, puseram-se a dançar em torno de mim, saltando e batendo palmas.

- Oh, Liz, como é lindo o seu vestido! Como você fica bem de vermelho!

Coloquei no chão o pequeno cesto que eu trazia, misteriosamente coberto por um guardanapo branco. A pequena Sara, mais curiosa do que a irmã, repetiu a pergunta:

- O que você trouxe para o almoço, Liz?

- Figos e morangos - disse eu, suspendendo o guardanapo -, morangos da serra.

- Oh, eu adoro morangos! - gritou Sara, recomeçando a saltar.

Colocado o cesto junto às outras provisões, tudo bem abrigado sob a palmeira, fomos ver as raridades que já tinham achado na praia: uma estrela do mar, seca e arroxeada, algumas conchas quebradas e duas ou três substâncias gelatinosas, estranhas, frementes, de cor azulada, incerta, que ainda parecia conter os últimos lampejos da noite submarina.

- Cuidado, Sara, isto queima!

- Ui! - fez ela, abandonando violentamente a matéria, que rolou inerte ao sol. Um instante ainda quedou imóvel e azulada - depois uma onda mais forte levou-a, incorporando-a de novo ao seu indevassável mundo escuro e líquido.

- Adeus - gritou a pequena Sara para a onda que se retraía -, volte outra vez ao fundo do mar!

Continuamos as nossas pesquisas e, como a espuma nos molhasse, tiramos os sapatos. Maravilhadas, deixávamos que nossas pegadas imprimissem na areia mole. O sol, mais alto, fazia verberar intensamente toda a vasta extensão do mar.

- Não nos afastemos muito - propus eu -, talvez os outros cheguem e não nos encontrem.

De fato, outros companheiros vinham chegando: Eduardo e a irmã, Amanda e Júlia. Ao todo éramos sete e tínhamos combinado aquele piquenique para comemorarmos o início das férias. Oh, depois do longo período de estudos, como estávamos sôfregos por liberdade, ar livre, o vento e as praias! Como a ilha nos pareceu um recanto abençoado, com suas rochas, suas furnas, suas árvores, sua cabeleira verde, nativa e abençoada! Eu então, a quem a longa doença de meu pai retivera tantos meses à sua cabeceira, olhava para tudo aquilo com um verdadeiro sentimento de embriaguez. Uma energia nova despontava realmente no meu íntimo - e isenta de cuidados, tonta, feliz, eu corria de um lado para o outro, sentindo a minha alma se dilatar como se dentro dela penetrasse todo o azul do oceano. Corríamos - e tudo nos servia de pretexto para correr: uma onda maior nos assustava, uma borboleta amarela que vinha do mato e se desgarrava na praia, um avião cortando alto e nítido a imensa placidez do céu...

Sim, lembra-me que Eduardo, de joelhos sobre a erva, comia gulosamente alguns morangos furtados. Sara e Amanda tinham desaparecido ao longo da praia - só suas vozes, agudas e alvoraçadas, denunciavam o fervor das primeiras descobertas. Júlia, os cabelos batidos pelo vento, tentava escalar um rochedo demasiado íngreme para suas forças. E no centro de tudo, como um pequeno coração pulsando pela natureza inteira, eu me achava sozinha. Foi nesse instante, exatamente, que vi o homem. Estava um pouco distante e não perdia nenhum dos nossos movimentos. Era magro, alto e, menos do que sua estranha atitude de observação, o que nele me chamou a atenção desde o início foi o chocante contraste que oferecia à paisagem: não havia nada em sua pessoa que lembrasse a claridade e a alegria que nos cercava, ao contrário, vestia-se severamente de preto, e escondia mais ou menos o rosto à sombra de um chapéu também preto. Não sei porque, meu coração se confrangeu, e nesse sentimento havia algo do terror e da emoção com que havíamos contemplado minutos antes a substância gelatinosa do mar. "Talvez seja um doente, um desses tipos tão comuns que procuram o clima hospitaleiro da ilha" - pensei comigo mesmo. O certo é que, sabendo-me observada, minha alegria não foi mais tão espontânea. Corria, corria ainda fugindo das ondas que vinham se desfazer nos meus pés, revoluteava à toa pela praia - mas já agora a figura do estranho me obcecava. Lá estava ele, imóvel, no mesmo lugar. Meu Deus, jamais abandonaria aquela posição?

Pouco a pouco senti que ele exercia certa atração sobre mim e que seus olhos me fixavam de preferência. Quase sem querer, e sem saber porque o fazia, fui me aproximando aos poucos. Vi então que seu rosto era triste e severo.

- Bom dia - disse-me ele, sem dúvida esforçando-se para ser acolhedor.

- Bom dia - respondeu eu, cheia de susto, de receio e de curiosidade.

- Como se chama? - perguntou-me.

- Liz.

- Bonito nome! E vieram fazer um piquenique?

- Sim, para aproveitar a manhã.

Ao mesmo tempo que eu falava, pensava comigo mesma: "É um doente, só pode ser um doente. Nunca vi ninguém tão pálido assim..."

- E que fazem vocês, correndo?

- Oh, apanhamos conchas... estrelas do mar... coisas por aí...

Ele me fitou severamente, como se isto não fosse uma ocupação para uma menina da minha idade.

- Já tem 15 anos? - tornou a perguntar

- Daqui três dias farei...

- Ah! - e não disse mais nada.

Por um momento olhou em torno, como se procurasse meus companheiros com a vista. E de repente, com voz surda e ligeiramente trêmula, indagou:

- Não gosta de flores?

- Flores? Adoro! - respondi.

Então ele fez um sinal e mostrou-me o rochedo mais próximo:

- Ali em cima há uma, maravilhosa...

- Uma quê? - fiz eu, sem compreender.

- Uma flor, uma papoula.

Não acreditei, cheguei a rir:

- Papoulas não dão sobre as pedras...

Ele zangou-se e seu rosto se tornou muito mais sério aidna:

- Está é uma papoula especial... uma papoula azul.

Eu não sabia o que pensar e fiquei olhando-o. Talvez fosse verdade, quem sabe? Sua voz era tão fria e convincente! Como eu demorasse a responder, vi acender-se nos seus olhos um brilho de impaciência:

- Não quer vê-la?

- Quero... mas onde está?

- Por trás daqueles cactos... daqui não se vê.

Sobre os rochedos mais próximos, estranhos e solitários, cresciam gigantescos cactos que o vento do mar açoitava. Naquele minuto, não sei se acreditava ou não que existisse entre eles uma papoula azul - sei apenas que o mistério daquele homem me atraía. Acompanhei-o. Por trás de mim, ouvia as risadas de meus companheiros, que se distanciavam. O homem caminhava na minha frente, curvado, ofegante, como se tivesse pressa. Seus dedos longos, agudos, agarravam-se à rocha como garras. Não tardou muito para chegarmos ao alto - e numa rápida pausa, enquanto respirava, banhei-me na visão do mar, que se descortinava inteiro, soberano, reinando dentro de um vasto espaço de luz e de silêncio. Ao longe, passava um vaporzinho - e lá em baixo, na franja dourada da areia, Sara e Amanda corriam descalças e gritava, deviam ter achado qualquer coisa. Súbito, voltei-me: o homem me fitava com olhos estranhos.

- Onde está a papoula? - perguntei.

- Ali - mostrou-me ele.

Olhei e não vi nada, só os cactos.

- Onde?

Ele se aproximou mais, como para me mostrar a flor.

- Ali, bem ali.

Olhei de novo - e de repente senti uma dor aguda, horrível, atravessar-me o braço. Dei um grito, sem compreender o que fosse e, erguendo-o, vi com espanto que o homem tinha enterrado nele um comprido e negro espinho de cactos.

- O senhor! - exclamei com um soluço, apavorada.

Ele me fitou com olhos de que jamais me esquecerei, tão duros, tão cruéis se mostravam. Ao mesmo tempo que ele se revelava com esse olhar, não tive mais dúvida de que me achava na presença de um louco.

- Amanda! Sara! - comecei a gritar, com um fio de sangue a me escorrer pelo braço.

De um salto o homem se afastou e desceu pelas pedras, correndo. Na fuga o chapéu lhe caiu, ele o apanhou com um movimento convulso e continuou a correr, sem olhar para trás. Vi então que era completamente calvo e, fascinada, acompanhei-o com a vista até que, atravessando a zona de sol, integrou-se na sombra, onde desapareceu para sempre.