sábado, 16 de julho de 2011

Escapismo - Caim Castellamare



- Príncipe Caim, com sua licença, a Rainha me mandou dizer que exige pontualidade para essa noite.

A voz de Dolores era sempre uma balada doce. Suas bochechas fartas da gorda que era retumbavam para fora e para dentro da boca abaulando sua pele de cera como um instrumento orquestral. Naquela frase, porém, eu sentia notas de uma ironia ácida gotejada sobre o forro de discrição que sua posição impunha – afinal, minha mãe sempre e sempre se atrasava. E na previsibilidade dessas cordialidades tantas, que nas repetições ensinam, eu já me encontrava devidamente vestido. Ainda assim, assenti respeitosamente. Gostava daquela senhora. Muito.

Senhora e tia. Dolores é bastarda de meu avô. E para não ficar à deriva de seu destino maculado foi forçada a ser minha criadora. Mas parecia não se incomodar. Seus sorrisos de dentes marfinizados eram nada mais que um retrato do paraíso onde vivem os que com nada se preocupam, e apenas gozam da bênção da parcimônia, da ignorância. Sem ser nem por um segundo ignorante, mas um paradoxo espantoso e sobretudo angelical. Sabia muito de história, das cordialidades dos nobres e das engrenagens enferrujadas da política. Quando surgia pela manhã ondulando na fortaleza do próprio corpo, fitava-a sempre na esperança parca de que fosse minha mãe, já que era provavelmente a mais próxima dela em aparência. Quando a questionava, ela dizia num murmúrio vergonhoso que sua irmã tinha a beleza do dia, da tarde e da noite. Era o crepúsculo e o alvorecer. A mesma frase, ouvi durante anos... E nas terras férteis das minhas divagações de criança eu sentia não curiosidade, tampouco orgulho, mas uma frieza no âmago que se configurava num sentimento novo muito próximo do pavor absoluto.

Duas irmãs com destinos tão opostos. Sentia-me inclinado a proteger Dolores já que minha mãe roubara dela não somente toda a possibilidade de poder, mas também a arma mais poderosa que uma mulher poderia empunhar: beleza. Ou talvez as duas coisas estejam intrinsecamente conectadas, beleza e poder. E as raras vezes que a Rainha se dirigia particularmente a mim com aquela máscara cicatrizada na pele, a insensibilidade de suas palavras eram como uma extensa carta sobre a mais sôfrega resistência e toda a amargura do mundo. E a um fascínio secreto e persistente. Mas como podia um abismo tão grande separá-las, se vieram em parte do mesmo sangue? Entendi depois que somos todos feitos de abismos, e são as diferenças que reinam na escuridão que nos controlam e nos completam, e escrevem todos os destinos. Hoje, na ilusão de sensatez do quase adulto que sou, abandono um pouco o sentimentalismo exacerbado de criança e coloco a indumentária da seriedade que faz um homem se impor. Sou príncipe, antes de pessoa. Portanto escondo a piedade em gavetas mofadas.

- Pois então vamos, já está na hora.

Numa reverência plácida, seguiu-me com os olhos enquanto eu saía do cômodo e apenas o estalar dos meus passos desconcertava a monotonia do silêncio. Para depois a cuidadora então me acompanhar.

O salão real era a alguns corredores dali, corredores quase desertos. O tom do mármore que estava em todos os lados, pois tudo era mármore e o mármore era tudo, sempre refletiu sobre meus olhos uma brancura extasiante, longe de tudo que é agradável. Parecia esconder a sujeira, disfarçá-la. Em algum lugar do castelo nascia uma sinfonia triste, nos dedos de algum pianista triste, que retinia nas quinas e nos cantos e debulhava-se nos meus ouvidos, impregnando-me com a sensação da lamúria de sua harmonia de sono e de morte e de silêncio. Passos depois, percebi que vinha do salão real. A música – meu guia.

Encontrei no fim dois guardas que inclinaram o pescoço em respeito. Sorri sem exibir os dentes. A porta escarlate que estava ali dava acesso ao local da reunião. O rangido metálico era o som que precedia minha entrada costumeira, teatral e, aos olhos de alguns e até de mim, cômica. O trompete explodiu num grave ensurdecedor que ocluiu o piano de outrora. As portas se abriram, um qualquer anunciou meu nome e então passo a desfilar tortamente no tapete vermelho e aveludado. Irritante. Meus passos já não fazem mais barulho. Nada faz barulho. Uma mulher que nunca vi antes flexionou o pescoço como se a musculatura cedesse na ausência do som, seu alimento. A pianista. Ela se encontrava um degrau acima de onde as poltronas dos nobres se alinhavam na horizontal. Era bonita, e eu não sabia dizer o porquê, já que sua face era totalmente escondida pela sombra de uma boina de renda, azul e aparentemente feita por um artesão raro em habilidade. Tudo nela parecia frágil. Magra, as mãos extremamente finas e seu único fragmento visível, a boca, não era nada senão um detalhe róseo sobre a pele pálida, mas sem exibir cansaço. Não parecia curvar-se para mim, mas para o piano.

Ah, para quem vive mergulhado nas águas densas do poder, aquilo que é grácil, mimoso e sutil é algo muito além do belo e se transfigura num convite de folha dourada. A uma paisagem de céu laranja-roxo, nuvens livres e vento raso a esfriar a canela, com poças também rasas aqui e ali. Atraente, mas tão distante! Que me faz intocável a tudo, e tudo intocável a mim.

Quando me sentei na grande cadeira dourada a esquerda de duas outras vazias, uma da Rainha e a outra do falecido Rei, notei que a musicista, agora às minhas costas, privara-me de perceber todos os outros ali presentes. Talvez três dezenas de pessoas sorriam para mim na placidez comum daquelas ocasiões. Poucas eu realmente conhecia o nome, a feição, a história de vida. Provavelmente todas mais interessantes que a minha. Retribuí.

- Haveremos de esperar mais alguns minutos, como todos já sabem. Até lá, donzela da música: continue.

Algumas risadas cordiais precederam a nova melodia. Eufórica em demasia, lasciva e lancinante. Convidava-me a olhar por atrás do meu ombro, mas não o faria. Enquanto os dedos da graciosa subiam e desciam cada vez mais rapidamente, o teste se tornava árduo. Ela queria contar sua história, ao mesmo tempo contando a minha por querer. Brotou na consciência a lembrança de Dolores cuidando de um corte que eu abrira em minha própria mão, na tentativa de cumprir a etiqueta dos banquetes e das facas. Tão preocupada, num dos poucos instantes que seu rosto se retesava num franzido completo e paralisado. Enfaixou-me com um tecido branco banhado num líquido qualquer. Mas no seu olhar que sempre se comprimia quando algo estava errado comigo, ela sabia: eu causara aquilo para chamar a atenção de Vêda. E à noite, eu exigia dormir mais cedo para sugar toda a expectativa que era fixar o olhar na porta do quarto esperando que ela irrompesse, nas suas vestes sempre imperiosas, para oferecer um carinho raro, materno. Cada estampido comum da madrugada era um sopro gélido de esperança. Ela não vinha. A tia que surgia. E antes de gratidão, sentia na boca o gosto áspero da raiva contida. Maldita Dolores! E crescendo e vivendo onde os papéis não eram claros - tia que era mãe e todo o resto, mãe que era máscara e nada mais, pai que era defunto e nem memórias -, onde eu encontraria a mim mesmo? Naquela melodia, talvez.

Rangido na porta. O trompete explode ainda mais alto. Breve silêncio. O anúncio.

A Rainha.

16 comentários:

  1. INCRÍVEL sua habilidade de tecer histórias tão envolventes, a capacidade de nos permitir infiltrar nos sentimentos vagos e passos do personagem deixa a vontade de ler sempre contínua. *_______________* Adorei o vocabulário e as metáforas como sempre eeeeeeeeeee
    muito bom!! misturei-me nos sentimentos dele e vislumbrei as cores e gostos que vieram no conto!
    NÃO PARE DE ESCREVER!!! QUERO MAISI
    hehee
    realmente envolvente e bem feito!!! parece já não haver limites para superarem vc mesmo na sua escrita!
    ABRAÇO GUIII !! =DDDDD

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  2. Realmente muito bom, um texto londo que logo foi devorado.
    Primeira vez que passo por aqui, vou voltyar para ler outras coisas e este texto novamente pq estou com sono e posso ter perdido algo sobre Dolores



    http://umcontoemeio.blogspot.com/

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  3. Nossa, estou encantado com os seus textos, realmente muito bem escritos e de ótimo bom gosto.

    Quero passar sempre por aqui.

    Grande abraço e já sigo o blog com louvor.

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  4. Muito bom texto! Como sempre, surpreendente!

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  5. A minha antipatia pela rainha triplicou depois desse texto.
    Me identifiquei um bocado com o Caim, principalmente no que diz respeito à indignação dele sobre as injustiças e corrupção na família.
    Se o seu objetivo era deixar a pianista uma personagem adorável e misteriosa, conseguiu fazer isso perfeitamente.
    Espero loucamente pela continuação!

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  6. Olá Guilherme,

    obrigada pela visita.
    peço desculpas pela ausência e demora para responder seu comentário.

    a vida por cá anda meio corrida... faculdade, estágio, cansaço, às vezes o computador dá problema - como aconteceu nesta última semana, o que me fez dar uma pausa no blog - enfim, é isso.

    é pouco tempo para fazer tudo =|

    apareci por cá algumas vezes, mas não deu para comentar.

    li tudo bem ligeiro.

    desejo que esteja bem, escrevendo e cheio de luz.

    abraços para você e obrigada pela adorável visita!


    Jenifer

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  7. Sua capacidade de criar histórias é incrível.

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  8. Gui. Olha você que tem que publicar um livro. Um não. Milhares. As suas histórias são tão convincentes, tão reais. Parabéns. Li e reli.

    Um beijo

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  9. Primeiro ele ama depois ele odeia...pobre Dolores.Contudo,todos seus personagens são muito polidos rapaz...
    Sei que ela só é um detalhe,Dolores, no pano de fundo mas sempre me chamou mais atenção histórias com mais de um ponto de vista;assim como Caim ela pode falar também?
    Seu modo de escrever é bem leve e detalhado,se já não disse...se um dia tu parar de escrever creio que,certeza que esquecerei de vários contos,vou lembrar do seu jeito de contar.
    Me prendeu tanto do seu texto que segurei minha urina até terminar de ler ele =)

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  10. - Então, gostou ?
    - Não li todo.
    - E não ? Por quê ?
    - Tive pressa!
    - Com o quê ?
    - Com o silêncio.
    - E ele corre ?
    - A passos largos enquanto ele dorme.

    Ele ficou sem entender, franziu as sobrancelhas pouco alinhadas.
    Mas ela de tão longe, não viu, só imaginou, enquanto questionava-o muda (nem tanto): Medo porquê ?

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  11. Garoto! Eu tô de queixo caído pela simplicidade e por vc conseguir ter me deixado tão desnorteado!

    em singelas palavras: Incrível, bem feito, encantador no primeiro parágrafo.

    Podemos conversar qualquer hora?

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  12. Personagens bem construídas, estrutura boa, excelente habilidade na discrição das personagens. Gostei muito.

    Abs,

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  13. Parabéns pela história. Legal de mais.

    Nosso blog é de crônicas. Se quiser ler

    www.arteurbana2011.blogspot.com

    Estamos seguindo o seu!

    Abs

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  14. nossa boum texto...

    foi vc mesmo que ecreveu?

    Parabéns... escreve bem

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