
Era de um tecido tão fino, parecia seda! O paradoxo de uma seda metálica. Pendia sobre minhas mãos como se desistisse da própria existência. Bordada sobre si, caracóis disformes, verdes na essência, criavam redemoinhos que viajavam em todas as cores por sua extensão, e preenchiam o que seriam minhas têmporas – tão cansadas têmporas! A superfície bege sofria o dissabor do tempo ancestral que crepitava minha alma fugidia num fogo azul e vermelho, de inverno a verão. Eterno. E era pouco observado naquele caleidoscópio de cores vivas que o transformavam numa abóbada de falsa riqueza, falsa alegria, falso poder. E os redemoinhos banhados num macerado brilhante precipitavam ao redor das narinas, onde pequenos furos me permitiriam a dádiva do respirar. O abismo maior, circundado pela ideia de meus lábios estreitos, não era nada além de uma abertura para o vazio. O vazio de minhas palavras de dor inexprimível, ou de destino insosso, ou até de uma desgraça de sobremaneira, gélida e sem razão. A razão, tão aclamada, mas nada bem vinda nesses tempos. Os olhos permaneceriam em cárcere, haveriam de enxergar por entre as fibras daquele pano, o que não era tão difícil quanto parecia. A imagem da justiça cega, justamente o detalhe que me fazia uma figura tão imponente na corte. E tão frágil na solidão do próprio leito.
Eis minha geniosa máscara! Minha única fonte de liberdade que me salva do pavor absoluto que é ser eu mesma. Fui ao seu encontro, como que oferecendo um beijo, e ela ocluiu cada poro em resposta, colando em mim como um membro que reconhece sua verdadeira gênese. Senti meu cabelo padecendo ao resvalar do vento que zunia pela janela pouco aberta. Os fios de cobre, tão longos quanto as cortinas brancas, debatiam sobre si mesmos. Temendo aos arrepios a previsível mudança de comportamento. Sentada na cama, vislumbrei as montanhas forradas por neve que emergiam no horizonte. O emanar da tranquilidade, tão perto. E intocável. Alguns segundos se passaram... Meu rosto, outrora gélido, agora já podia sentir o rubor da pele que não respira. Era o sinal do dever que chama. Preenchi os pulmões com os ares daquelas montanhas, a única porção delas que eu poderia obter. Levantei-me na imposição de minha alcunha: a impiedosa e justa Rainha Mascarada.
- Cornélia, Liz, Arlene!
Tão logo a voz ecoou no primeiro anteparo, as três fidalgas, identicamente decoradas num longo e denso vestido azul escuro entremeado por fiapos de prata, surgiram com os semblantes pétreos numa reverência deveras teatral. Na face externa da porta, admirei o brasão – o castelo esculpido em mármore e o mar tentando desfazê-lo. A fortaleza que resiste às ondas gigantes, às intempéries. A qualquer coisa! Um nome que perpassa gerações... E vários fardos que morrem com elas.
Das três, que nada mais eram do que qualquer coisa entre a estupidez e a falta de beleza, apenas Arlene me interessava naquela noite. No silêncio salgado na boca que envolve quem manda e quem serve, as empregadas iniciaram seus fazeres noturnos sem delongas. O jantar na corte exigia um preparo minucioso para minha apresentação, sempre tardia, que trazia consigo as desejadas expectativas. Liz, que já empunhava o pente fino em cabo de madeira, alisava meus cabelos com uma força suspeita, segurando o couro cabeludo na altura da nuca. Sentada numa cadeira de mogno defronte ao espelho, eu podia ver seu rosto contrair em cada energia gasta, e aquilo me alimentava num amargo lascivo. Embora não soubesse ao certo que sentimento inundava o coração da tosca moça, podia até sorrir por trás do manto em resposta ao estranho prazer. Mas na honra que ela deveria sentir por ser fidalga pessoal da rainha, se percebia qualquer reação, recolhia-se sabiamente na mesquinhez de si mesma. Eu não precisei proferir uma sílaba sequer, e Liz sabia: reuniu quase todos os fios num coque horizontal, e deixou que em quatro pontos, exatamente simétricos em torno do centro, eles pendulassem livres, chegando à altura da cintura. Apenas um olhar em direção a porta e ela se retirou, não antes de reverenciar-me novamente.
Cornélia trouxe o vinho real, especialmente dedicado a mim, encheu dois cálices fitando-os como quem sente o paladar ser inundado por saliva seca e o gosto só no plano etéreo e fugaz da imaginação. Reverência. Foi-se.
Restou Arlene, negra e de seios mais fartos que os meus. Que os de qualquer uma. Lábios profusos. Olhos, bocas e cabelo também muito pigmentados. Meu antônimo perfeito. Prostrada a alguns centímetros, eu podia sentir o cheiro sujo de seu suor. Nojento.
- Seu marido veio?
Ela assentiu. Arqueei levemente as sobrancelhas como quem ordena a retirada. Ela assentiu. E apenas quando chegou ao limite da porta, virou-se para uma reverência que foi até a metade de altura das outras duas. Fechou a porta, que em menos de dois segundos foi novamente aberta.
O homem que surgiu, de meia idade, de meia altura, cabelos meio grisalhos e alma totalmente corrompida, entrou aos passos tímidos - embora frequentasse sempre aquele quarto. Levantei-me e fui ao seu encontro. Retirei a máscara e senti quase de imediato o toque de suas mãos ásperas analisando meu rosto. No vício e ao mesmo tempo reféns do silêncio, trocávamos nossa intimidade travestida na urgência do tempo que era pouco. As paredes de fato ouvem, haveria mesmo de ser daquela forma. O homem então calculava a textura, os traços, as curvas. Os dedos viajaram por tudo que residia acima do meu pescoço e por onde caminhavam devolviam a vivacidade e o rubor para o meu todo de palidez. E o sorriso quase risível que se desenhava em sua feição alongava-se gradativamente. Como quem perde a inibição num supetão de falsa intimidade, bebeu do vinho que sobrenadava no cálice dourado e vi seus olhos fechados como o convite do paraíso. Aproximei-me o suficiente para que só coubessem beijos ou palavras. Vieram palavras:
- Parece que tudo vai bem, minha rainha! Um resultado notório, além do esperado, eu diria... – a voz morosa num suspiro rouco, excitava-me por trás de minha realeza de obelisco, e eu resistia – Mas continuarei te visitando, se isso não for problema para Vossa Majestade.
Parei de resistir. Despi-me, num ritual costumeiro no nosso pacto particular, e fiquei nua para que ele me moldasse da forma que bem entendesse. Que me tocasse. E vieram os beijos, apascentados em pressa. Virou-me e, por trás, envolveu-me num vestido totalmente dourado, que ondulava sobre si mesmo e no assoalho. O busto escasso bem oculto. Eivado. E soprou ao meu ouvido que eu lhe lembrava o sol, o visitante mais raro. Mas eram beijos frios, que talvez só encontravam calor no terreno quente e desmesurado que Arlene deveria ser.
Antes de Hector me deixar, resguardou um último olhar, silente. Devassada pela névoa de seus olhos opacos, coloquei-me à deriva de um sentimento que eu traduzira como o mais tenro desgosto. Talvez eu não fosse a sua experiência oportuna e primorosa. Encarcerada naquele invólucro de pele. No meio do bramido da porta se fechando na sua cruel despedida, ouvi sua voz de terra infértil pela última vez naquela noite.
- Não esqueça sua máscara.
Sem reverência.