
Não venha esperando coesão nessas linhas que, sem rigor nem consciência, vou desenhando meio tortas por aqui. Coesão é pra quem a vida constrói histórias bem montadas. Roteiros bem escritos. Coesão, nexo, coerência, estabilidade... Não. E lhe digo que estou embriagado demais pra ordenar minhas lamúrias. Também de álcool. Mas mais daquele cansaço seco, sôfrego, que deprime os ombros e obstrui a garganta sequiosa com respirações cada vez mais entediantes. Um cansaço que vem de lugar algum, e ao mesmo tempo de todos os cantos que posso enxergar. Sem motivos, sem raízes, sem cerne. Simplesmente não sei. Como disse, não fiz pacto com a coerência.
Sei é que esse mundo não tem para me dar o que eu quero. Não está aqui. Não criaram a palavra e nem a imagem e nem o sentido do que minha alma anseia. Talvez eu seja só um deslocado. Tresloucado. Porque não há nos olhos das pessoas a correspondência da brasa que eu queimo viva a cada palavra, das cicatrizes que eu faço em mim mesmo a cada gesto, sacrifício, resignação. Não há correspondência para os amores tantos. Eu sempre quero mais. Pois faço mais, e por mais que eu imagine levantando o escudo do altruísmo, quero sempre mais do outro. E nunca, nunca o tive. E não entenda errado: não culpo ninguém. Tive porventura a falta de sorte de nascer escritor. Escrevo romances, suspenses, aventuras e comédias que não passam de abstração. Eu vejo os pássaros e sinto inveja. Os namorados e sinto inveja. Os ricos e sinto inveja. Os talentosos, os de fato escritores, músicos, atores. Os famosos. Os políticos. Os amantes.
O cansaço que me entope as vias e me impede a reclamação. Passei desse estágio. Se na Terra os símbolos que sustentariam meus ensejos de fato existissem, eu teria a quem culpar. Mas não. E essa mácula faz de mim um eterno descontente e prisioneiro de mim mesmo. E em pensar que as coisas poderiam ser mais simples... Que as pessoas poderiam entregar-se umas as outras sem as amarras das frustrações, do passado. Seria bom se toda paixão louca fosse correspondida. Que todos de fato tivessem a oportunidade de se doar e ver seu íntimo completamente exposto, aceito e respeitado. E por que não é? E me sinto patético. Que tamanho tem a ausência desse amor ao lado de quem não possui nem sequer amparo da família? Cerro os punhos ao me ver parte desse quebra cabeça difuso em que me disponho tortamente. E passo horas e horas e horas dissecando uma única palavra: justiça. Que palavra é essa? Onde está a balança dourada que bagunça isso tudo? Mas o problema não é esse e só: vai mais no fundo, no subsolo, nas profundezas das mentes que acompanham o coletivo e vão se pervertendo, subvertendo. Não há aperto de mão sem a empunhadura da ameaça. Não há favor sem chantagens. E eu me perco. E eu me perco e me perco e ainda assim, vejo cada rosto sibilar um mistério tão instigante que vou, sem hesitar. Degusto cada sonho como uma criança que ganha o mais caro brinquedinho.
E amar essa vida torpe é a mais linda contradição. Essa que me põe de cócoras e lágrimas a cada decepção frequente. Em cada história de amor que não dá certo. Em cada linha esperançosa que eu, escrivão, vou tecendo para mim e que se desmancha e se desfaz, ao mero sabor do acaso. E mesmo assim amo amar e viver. Sonhar. E essa felicidade maculada e profunda que é o combustível de cada passo lento de superação, que ergue os joelhos para outro enfrentamento. E a cada início de batalha - coitado de mim - sei que acredito numa justiça invisível que reserva um segundo de recompensa. Ao menos um! Que permitirá que eu me abstenha da rotina lancinante do trabalho para um dia ver a relva, de mãos dadas com o fruto da minha inspiração, bebericando qualquer coisa e falando de sentimentos. Que permitirá que eu me faça controlador de todas as variáveis da vida e uma pessoa de instabilidade inviolável. Que permitirá que cada palavra de preocupação seja reconhecida e valorizada pelos outros. Que me fará ser amado em plenitude. Que me reservará alguns dias sem tristezas, sem desagradáveis surpresas. Não quero precisar da embriaguez. Quero remontar essas cascas de vidro que me tornei para recompor um vitral mais ou menos coerente. E quase gargalho alto ao ver até onde a insanidade faz sustento. E me sustento aí. Abraço os joelhos e esqueço que sofri, começo a cantar e a balançar a cabeça. O cansaço, posso suportar. E sigo em frente...
Pois o que mais é o amor?