
- Senhor padre, por acaso sabe onde o dono desses materiais de pintura mora?
- Do lado da quitanda ali na esquina, meu filho...
- Muitíssimo obrigado! Informação realmente valiosa!
De súbito, como as lembranças que espreitam na mente até o momento oportuno de fazer valer sua existência, lembrei-me de uma música do Teatro Mágico que ouvira na casa da Thaís nos momentos áureos que me pareciam bem mais áureos naquelas divagações do que realmente foram. Basta as penas que eu mesmo sinto de mim, junto todas, crio asas, viro querubim. O verso regia a triste melodia que me conduzira até a basílica naquele momento. Um anjo que remodelava o seu caráter para fazer valer sua justiça. Mas as asas eram vermelhas. Asas de um querubim caído.
E de fato eu fui à busca de meu algoz, na enfadonha tarefa de vencer minha letargia. Uma tela estava lá, erguida numa haste da madeira. Em branco. Seu artista, como previsto, ausente. Se ele roubara o que há de mais precioso para mim, que mal há em tirar algumas partes dele também? Se de fato Deus existe, Ele haveria de entender a minha lógica. De entender a minha dor. Mas Deus não interpela por seus filhos... Carreguei os utensílios até a igreja e recebi, com o usual sorriso de bom samaritano, as úteis palavras do clérigo.
Toda aquela munição de informações e energia me amedrontou. Os passos, agora tímidos, conduziam-me a reflexões de impulso. Onde haveria de estar a felicidade se, mesmo aquela que preenchia o ar com juras e confissões de amor poderia provar o veneno da traição? Humanos podres! Fadados aos sentimentos efêmeros, a amores inconstantes e alicerçados em interesses fugazes! A eternidade de um amor seria uma triste utopia ou um mero egoísmo? Se eu pudesse me livrar daquela dor de alguma maneira... Ou melhor, se eu pudesse transferir para ela cada fagulha de desespero!
Vi-me já na quitanda. Uma casinha simples de alvenaria antiga, duas janelas e um jardim mal aparado. Retesei. A sensação do fim iminente me inundava num alívio extremamente doloroso. O fim... Lutava na busca de um preço que eu não seria capaz de suportar. A submissão, embora inaceitável, parecia tão menos cruciante!
- Você pode se elevar até o céu. Basta você querer...
E pela primeira vez aquele timbre ácido penetrava em meu ouvido. Era ele! Podia reconstruir na mente cada detalhe de sua silhueta. Queria agredi-lo, matá-lo! A ideia de derramar o sangue de um artista que não entendia o valor do amor me parecia assustadoramente convidativa.
- Já está feito. Prontinho!
- Que maravilha! Lindo, lindo, lindo! Obrigada, mesmo!
Antes que eu pudesse reagir, a porta de entrada se abriu num ranger metálico. Thaís! O primeiro sentimento que me afugentara fora o de uma saudade lancinante, voraz, que eriçava cada pêlo em minha extensão de pele. O ódio parecia se dissolver nas águas límpidas de sua beleza. Beleza essa reproduzida – e me fere admitir – com maestria num quadro que ela abraçava rente ao peito. Ela e o céu. E eu estava entre os dois, impedindo sua ascensão. Minha musa das tristezas infindas limitou-se a uma surpresa fingida.
- O que está fazendo aqui, André?