sábado, 15 de outubro de 2011

Demência

A janela era um círculo pequeno listrado por finas hastes de aço. Ainda assim, dedos de luz escapavam daquela pequena prisão e chocavam-se na parede branca na maior velocidade permitida por Deus, às vezes ricocheteando na cama de panos também brancos, esquentando meu pé revestido em casca dura. Tudo ali era branco. E há no branco o fogo tímido próprio do que é luminoso, um martírio de cores que turbilhona as águas onde se dissolvem essências revoltas em trevas. Mas como fogo que é e se faz, tímido ou não, queima. Meus olhos dardejavam na órbita em todos os limites das pálpebras em busca de tons diferentes – mas minha pele empalidecia num tecido imberbe e coalhado onde não mais se fazia refúgios. Que saudade do verde das folhas e seu cheiro de qualquer coisa orgânica indecifrável! Quando Maria e eu deitávamos no gramado do sítio pra desenhar nuvens era de verde que nos banhávamos, e havia a inocência sublime dos braços que se levantam para tocar o céu e pedir a bênção do azul. Sinto o gosto de tâmara ocluir a garganta... Suas palavras eram veludo e poesias, pequenos cânticos, odes secretos que apenas eu orquestrava. E nada me interessava saber no mundo senão de seus segredos, de sua intimidade, daquela criptografia alienígena que tecia seus movimentos de corpo e de rompantes de insanidade perfeita em volúpias vermelhas. Aqueles cabelos de topázio líquido...

Agora eram quase pretos. Quando entrou no quarto olhou-me redonda numa desconfiança trôpega e devastada por qualquer coisa que se desenhava no meu rosto. Não quis perguntar, ela geralmente não respondia sem enigmas. Caminhou arqueada nas pernas estranhamente venosas em cordões púrpuras sobre terreno róseo. Ainda possuía a austeridade dos lábios crispados contendo as várias palavras que queriam nascer, porém já germinadas na sua feição toda ângulos.

Você não parece nada bem, João. – sua voz era um trovão eterno. Um lamento triste que ansiou retumbar em cada osso e carne e cartilagem e tudo além. Não havia a umidade da chuva pra precipitar em mim, somente suas lágrimas que pingavam no meu couro cabeludo em goteiras preguiçosas. E um abraço frouxo cheirando sal.

Como não conseguia falar - lacerações na língua -, tateei. Desenhei na sua cintura, com o indicador em meia unha, caracóis extensos que nasciam em círculo grande e morriam no abismo do ponto. Onde morava seu umbigo grávido ocluído pelo vestido carmesim. Tortuoso, sem jamais embarcar na estrada do reto. Pois são das curvas de quem não vê a si mesmo que ladrilhei meu caminho em direção a desgraça. O torto que representa o falho, o errado, o atroz. Dos farelos celulares que ficaram pelo caminho levando consigo o líquido da memória e da estrutura desgastada que aqui lhe sorri em sangue coagulado. Minha viagem ao vazio era solitária – e a mulher não compreende. Ela construía ao redor do volume que meu corpo ocupava no mundo o contorno de uma identidade que eu não mais possuía, através do teor ácido das lembranças que eu quase podia ver escorrendo por seus poros. O silêncio cheirava a culpa que ela cuspia de soslaio pela expectativa que nunca se cumpria. Vitral sem conserto, eu. Para ela: movimentos randômicos sobrepujados por loucura, e nada mais. E de que adiantariam suas palavras, fossem trovões ou veludos?

Tampouco pupilas que cravejavam em mim toneladas de piedade despertavam alguma faísca da faísca de alguma coisa. Maria... E essas cicatrizes invisíveis, você não vê? Quando foi que seus cabelos ficaram tão escuros?

Verônica e Roberto estão bem, sei que você pensa muito neles. Outro dia a professora de matemática do Beto me disse que ele seria um excelente engenheiro, de tão inteligente que é! Eles sentem muito a sua falta, você sabe... – falava como se tivesse lendo um texto o mais rápido que pudesse, oferecendo para deleite sua nuca, enquanto fingia olhar para além da pequena janela com o nariz em conta gotas.

Desbastado pela tormenta, irrompi na direção da senhora para degolá-la. Brandido em fúria. Seu pescoço, pano a rasgar. Roberto seria seu novo amante? Não poderia... Ela deveria me amar até o seu último suspiro! Essa fora a maldição que concordamos em nos lançar a cada beijo por línguas de fogo e seus nós de bocas unidas debaixo da alvorada de todos os dias. Ah, como é execrável cruzar a barreira do insano! Perdi a compreensão e a manifestação da linguagem que nos mantinha pessoas do mesmo universo. E se não há mais palavras que reclamem à incompreensão, eis a violência que somos todos nós, uns mais ou menos polidos, porém ainda partículas desse cosmo de hecatombes reunidas. Não há mais volta.

Talvez também não a compreendesse bem. O nome Roberto já morava em algum lugar das terras incendiadas de minhas memórias. Irresgatável nesses campos inférteis. Mas estrangulá-la ao som de seus ruídos de dor suspirada, como quem não quer chamar atenção do mundo para a besta, dava-me certa dose de prazer. A pele fina quase rasgando era a minha força provando o amargo sabor de quem olha altaneiro perante a vítima derrotada. Logo ela também cruzaria a fronteira. Larguei-a.

O choro agora era cachoeira vívida tropeçando sobre suas mãos em rocha que apertava as sobrancelhas, como se ali fosse o ponto único, a rede ímpar para agarrar-se a si mesma. Debruada sobre a cama de visitante, consumiu-se em desalento. A desgrenhada cabeleira morena, tão rala quanto conseguia, desprendia-se pelos dedos em punhos semicerrados. Flutuando até o chão numa viagem demorada. Sim - Maria despedaçava-se, deixando partes de si antes de partir. Borracha imprestável no emaranhado de sua fuligem. A verdade raramente se apaga. Mas existe a morte, muito viva em suas preces notívagas, eu bem sabia.

Sua figura inteira se contorceu num rompante ao dissabor da desordem. E ao deixar o quarto, cuspiu com o supetão que espreita o dissabor do descontrole. A nódoa de saliva caminhou gelada nas minhas têmporas.

Até cair na garganta, e ser digerida em doces lembranças.

domingo, 2 de outubro de 2011

Remetente

Meu caro Daniel,

Parece que ela dormiu (ou finge com a triste inocência de boneca que não é), então agora posso vomitar essas letras bravamente contidas nas camadas de mim que quase caem no esquecimento.

Sobre dormir. Labuta pesarosa como nunca foi! Quando os ponteiros já se cansam de anunciar o arrastar dos segundos e o sono pesa as pálpebras em sarcófagos temporários, Débora evita olhares. Seus túmulos particulares. Caixões negros de detalhes vermelhos em gotas de sangue. Vira-se para a parede e repete, noite após noite, a mesma sinfonia pétrea, calcária e inóspita: a que suspira de seus dedos retinindo incansavelmente na parede. E retinindo e retinindo... Como se escrevesse nas linhas de argamassa as palavras que não ousaria me dizer em costuras incongruentes, indecifráveis. De tecido podre. E eu me torno cúmplice do seu martírio silencioso, tocando seus ombros que me repelem em arrepios. Beijando suas costas de choro corredio. E sei que ela não deseja, que não há desejo, mas são as diligências de um casamento. Eu, o marido - o faço em busca de qualquer coisa que antagonizasse aquele silêncio crepitante de almas, em busca dessas almas talvez inscritas nas ranhuras daquelas quinas que ela desbravava mais que a mim. No fim, meu corpo padece à morte – infelizmente – temporária, temporariamente.

Dois dias atrás percebi na sua silhueta agora esguia e sem vida o impulso desesperador de quem não suporta ver os firmamentos cederem. Agarrou-me com a ferocidade (e o fedor) de um animal e cravejou as unhas longas no meu pescoço. Roçou a língua áspera no meu queixo e eis as primeiras palavras proferidas naquelas noites de tortura: pediu, no tom monocórdio de quem implora, que a penetrasse. Animalesca como nunca outrora. Os pudores são detalhes esquecidos pra quem fora esquecida pelos detalhes. Eu sou menos que isso. Não reagi, observando-a patética na tentativa de se despir, desajeitada, descompassada, fazendo nós nas próprias vestes e irrompendo em lágrimas ao se dar conta de que já não há mais firmamento. Abaixo de nós um abismo que engole tudo, e nada mais. Senão o meu toque frio e indesejado.

O telefone bem próximo ao abajur e não há ninguém do outro lado. Amigos? Nenhum. E essa culpa que ela deposita no arquejo dos meus ombros talvez eu não seja capaz de diluir. Sozinho assim. Nasci de um ventre com pouca vontade, e minha relação com a culpa sempre fora de maiores faíscas. A vida sempre atrelada à culpa de viver. E há na figura masculina essa responsabilidade pela integridade de sua prole, e talvez os gêmeos sucumbiram porque minha essência não era boa o suficiente. Ou pelos pecados dessa vida e de outras, pelo bel azar ou macumba ou olho gordo ou não sei. As respostas são várias e as perguntas, infinitas. É um presente de Deus que eu não compreendia, ousaram me dizer. Podia sentir a pulsação na garganta de Débora pela vontade de esbravejar pros meus ouvidos e para os vizinhos que a razão da hecatombe toda sou eu. Mas esse mesmo Deus de intenções misteriosas pôs no meu quarto essa mulher tão mergulhada na piedade de si mesma! Eu também teria o que vociferar, e ela não estava disposta a ouvir. Esse contrato silencioso nos silenciou.

Essa ideia em tormenta que turbilhona aqui e ali e quer virar verdade, mas é repelida. Inutilmente, pois já é a verdade desde que germinou: não sinto tristeza pelas crianças. Nem escassas fagulhas nos cantos mais obscuros de mim - certeza, pois procurei por longas horas de auto depreciação, durante chuvas extensas salpicando a janela... Sem sucesso. Afinal, morreram antes de existir. Nenhuma dor. Talvez tenhamos poupado aflições tantas! Ou são meros argumentos pra justificar minha mesquinhez? Ainda assim, não encontro no baú de mim lágrimas para homenageá-las. Mas lágrimas por essa solidão intrínseca que devora o mundo e além, lágrimas para os olhares piedosos, que julgam em palavras felpudas e também lascivas. Pelas vontades que evaporaram no poço raso que nos tornamos e por essa figura putrefata que me acompanha como uma maldição nas noites de comum zelo. Parca polidez das ocasiões sociais, segurando a mão dela na união perfeita de casal que não somos e jamais seremos, corrói a sanidade limite com a qual redijo.

Sou um tecelão de poucas linhas, um escrivão de palavras curtas e interrompidas por muitas vírgulas. Minha música é a melodia sem notas que compõe o silêncio e meus episódios de vida são quadros borrados por poucas cores. E cores sem vida. Meu sorriso é na fração inexistente do imediato e a dor é eterna, e a única a me manter firme nos dois pés fraquejados. A crueldade existe, enovelando cada palavra dessa cartilha, e sou eu.

Eu os culpo e os odeio, estes filhos que antes de nascer já tiraram tudo de mim. Escarro feito, assim termino.

Perdoe-me, se for possível.

Daniel.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Sanidade

[00:45]

A mão espalmada no azulejo frio e o suor em gota única escorrendo pela testa no seu sinuoso caminho breve da vida breve que tinha até respigar na privada e bolhas sujas saltitando depois. A pulsação resfolegava no peito nu na iminência da dor já conhecida. Que veio numa torrente amarelo-opaco impetuosa e ardida e áspera e quente e se tingiu no fim pelo escarlate enegrecido do meu líquido vital. Coloriu o enlameado de outrora com tintas de desespero e fechei os olhos lacrimejados na resignação torpe de quem quer clemência pelo sofrimento constante. E quando o gosto do silêncio se desvaneceu nos meus lábios secos desisti da piedade e acionei a descarga para quebrar aquela sinfonia maculada pelo podre de mim. Respirava pela boca como um vira-lata febril.

[3:13]

O sono não havia de durar muito e eu sabia mesmo nos meus anseios mais infantis. Abri os olhos desejando o anúncio da morte mas o que veio foi um escarro verde que desmanchei na fronha branca. Numa olhadela rápida em mim mesmo eis um relevo erodido por feridas exaustas na tentativa de cicatrização com manchas decorando o cenário do meu âmago dolorido. O espelho logo ali era o algoz da noite. O vidro da realidade costurava no reflexo a silhueta de um homem sadio a turbilhonar sobre si mesmo na cama no chão na parede sem motivo aparente. Tateei nas trevas e encontrei o termômetro. A luz da lâmpada pareceu queimar meus olhos crepitando lentamente e nada na minha vida eu conseguia explicar. Além do frio justificado pelos quarenta e um graus exibidos no visor.

[5:00]

- Alô, Laura?

- ...

- Eu sabia. Sabia que você não ia me atender! É sempre assim quando preciso de você.

- ... Vinícius? Eu estou dormindo. Ainda está escuro... São cinco horas!

- E daí? Será que não posso interromper seu sono de donzela? Você pode, não é? Você pode me deixar aos pedaços nessa desgraça de quarto!

- O que aconteceu? Por que está falando assim?

- Estou doente, e você sabe. Sabe que é a causadora! Que desde então eu sou esse moribundo de merda que fica contraindo tudo que existe e você nem se importa!

- Vinícius, eu já disse, você precisa se tratar. Entenda que acabou. Como tudo na vida. Tenta seguir em frente, pode ser?

- Vou, vou seguir em frente.

[5:38]

É tão vergonhoso além de fraco e até demente pensar que eu um dia acreditei que havia alguém ou ela por mim como eu por ela. Por vezes me imaginei em estradas desertas só o asfalto e o mato verde. Ela estaria logo do meu lado como a extensão mais particular do meu corpo e com aquele sorriso desmesurado que ela sempre lançava quando queria alguma coisa eu seguiria em frente e nada mais precisava existir. Que todos morressem! Assim eu seria o único alvo daquele olhar lascivo azul e grande que só ela tinha. O sentimento que te nutre pra viver também te mata naquele instante em que a pessoa colocada sempre ali e sempre ali parece imortal e portanto pode-se nela descarregar a ira dos dias de chuva. Ainda assim como entender que num relapso num relâmpago num lampejo de segundos a chama que inflamava o amor foi engolfada pelo sopro do vazio? É nesse momento que todos os alicerces ruem e a racionalidade se esvai e com ela todas as memórias se apagam no tempo. Deus sabe que eu faria tudo. Esse Deus que agora existe tanto! Penso nele como o sorvedouro de pífias esperanças jorrando em fontes escondidas. Faria tudo.

[6:44]

A cada elevação do tórax na inspiração entorpecida ela cravejava com mais força as raízes a perfurar as ranhuras ictéricas da pele. A planta se erguia majestosa bem diante dos meus olhos e os galhos muito verdes retorciam no ar só se limitando ao teto. As raízes remexiam qualquer coisa dentro de mim mas não era nada tão doloroso quanto aquela epopéia fastidiosa que eu haveria de escrever não sem pesar com sangue lágrimas suor escarros e pus. As folhas esfareladas cujo verde agora morria num podre marrom padeceram sobre meu corpo-solo e ali mesmo montaram serrapilheira. A erva daninha brotou das paredes e saltou até a quase árvore de modo também quase vampiresco em busca da seiva da vida que eu nunca mais haveria de provar. Trovejei sobre mim mesmo palavras de êxtase e insônia. A mão não podia ser engolida e portanto eu não conseguia desaparecer num ponto insignificante do universo e ali ficar. As raízes mesmo mortas já atravessavam pelas minhas costas e uma nova árvore surgia em direção ao chão. A cama que se quebrou num estampido agudo e ao mesmo tempo me apontava o abismo entre a sanidade e a loucura convidativa. Caí ali no pandemônio escuro que se revolvia num líquido fluído e espesso de morte. E acabou... Já não estou mais doente.