quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Tradução


Minha vida sexual com minha mulher, Marta, é muito insatisfatória. Minha mulher é pouco lasciva e pouco imaginativa, não me diz coisas bonitas e boceja quando me vê galante. Por isso, às vezes vou de putas. Mas estas cada vez mais são apreensivas e estão mais caras, e ademais são rotineiras. Pouco entusiastas. Preferiria que minha mulher, Marta, fosse mais lasciva e imaginativa e que me bastasse. Fui feliz apenas uma noite com ela.
Entre as coisas que me legou meu pai ao morrer, há um pacote de cartas que ainda liberam um pouco de cheiro de colônia. Não creio que a remetente os perfumasse, mas que em algum momento de sua vida meu pai as guardou perto de um frasco e este virou sobre elas. Ainda se vê a mancha, e portanto o cheiro é sem dúvida o da colônia que usava e não usou meu pai (posto que se derramou), e não o da mulher que as enviava. Este cheiro, além do mais, é característico dele, cheiro que eu conheci muito bem e era invariável e não esqueci, sempre o mesmo durante minha infância e durante minha adolescência e durante boa parte da minha juventude, na qual ainda estou instalado ou que ainda não abandonei. Por isso, antes que a idade pudesse inibir meu interesse por estas coisas – o galante ou o passional –, decidi olhar o pacote de cartas que me legou e que até então não tivera curiosidade de olhar.
Essas cartas foram escritas por uma mulher que se chamava ou ainda se chama Mercedes. Utilizava um papel azulado e tinta negra. Sua letra era grande e maternal, de traço rápido, como se com ela não aspirasse a causar impressão, sem dúvida porque já a havia causado até a eternidade. Pois as cartas estão escritas como que por alguém que já estivesse morto enquanto as escrevia, se pretendem mensagens do além-túmulo. Não posso ao menos pensar que se tratava de um jogo, um desses jogos nos quais são aficionados as crianças e os amantes, e que consistem essencialmente em fazer-se passar por quem não se é, ou, dito de outra forma, em dar-se nomes fictícios e criar-se existências fictícias, seguramente pelo temor (não as crianças, mas sim os amantes) de que seus sentimentos demasiado fortes acabem com eles se admitem que são eles, com suas verdadeiras existências e nomes, que sofrem as experiências. É uma maneira de amortecer o mais passional e o mais intenso, agir como se ocorresse com outro, e é também a melhor maneira de observá-lo, de ser também expectador e dar-se conta dele. Além de vivê-lo, dar-se conta dele.
Essa mulher que assinava Mercedes havia optado pela ficção de enviar seu amor a meu pai mesmo depois da morte, e tão convencida parecia do lugar ou momento eterno que ocupava enquanto escrevia (ou tão segura da aceitação daquela convenção por parte da destinatário) que pouco ou nada parecia lhe importar o fato de confiar seus envelopes ao correio, nem de que estes levassem selos normais e carimbos da cidade de Contagem. Iam fechadas, e a única coisa que não possuíam era remetente, mas isto, em uma relação semi-clandestina (as cartas pertencem todas ao período de viuvez de meu pai, mas ele jamais me falou desta paixão tardia), é pouco menos que obrigatório. Tampouco nada teria de particular a existência desta correspondência que ignoro, se meu pai responderia ou não pela via ordinária, pois nada é mais frequente que a submissão sexual dos viúvos a mulheres intrépidas e fogosas (ou desenganadas). Por outra parte, as declarações, promessas, exigências, rememorações, veemências, protestos, rubores e obscenidades de que se nutrem estas cartas (sobretudo de obscenidade) são convencionais e se destacam menos por seu estilo que por seu atrevimento. Tudo isso nada teria de particular, quero dizer, se não fosse pelo fato de que a poucos dias de decidir-me abrir o pacote e passar a vista pelas folhas azuladas com mais equanimidade que escândalo, eu mesmo recebi uma carta da mulher chamada Mercedes, da qual não posso acrescentar que ainda vive, posto que me parecia estar morta desde o princípio.
A carta de Mercedes dirigida a meu nome era muito correta, não se tomava confianças pelo fato de haver tido intimidade com meu progenitor nem tampouco incorria na vulgaridade de transferir seu amor pelo pai, agora que este estava morto, a um doentio amor por seu filho, que seguia e segue vivo e era e sou eu. Com escassa vergonha por saber-me inteirado de sua relação, se limitava a expor-me uma preocupação e uma queixa e a reclamar a ausência do amante, que, ao contrário do prometido tantas e tantas vezes, ainda não havia chegado a seu lado seis meses depois de sua morte: não se havia reunido com ela ali onde haviam combinado, ou talvez seria melhor dizer quando. Em seu modo de ver, aquilo só podia dever-se a duas possíveis causas: a um repentino e posterior desamor no momento da expiração, o que fizera o defunto descumprir sua palavra, ou ao fato de que, ao contrário do disposto por ele, seu corpo haver sido enterrado e não cremado, o que – segundo Mercedes, que o comentava com naturalidade – poderia, se não impossibilitar, dificultar o escatológico encontro, ou reencontro.

Era certo que meu pai havia solicitado sua cremação, ainda que sem demasiada insistência (talvez porque foi só ao final, com a vontade minada), e que, no entanto, havia sido enterrado junto a minha mãe, já que ainda restava um lugar no jazigo familiar. Marta e eu o julgamos mais próprio e sensato e mais cômodo. A brincadeira me pareceu de mau gosto. Joguei a nova carta de Mercedes no lixo e ainda estive tentado a fazer o mesmo com o pacote antigo. O novo envelope levava selo e carimbo também de Gijón. Não cheirava a nada. Eu não estava disposto a exumar os restos para queimá-los.
A carta seguinte não tardou a chegar, e nela Mercedes, como se estivesse a par da minha reflexão, me suplicava para que cremasse meu pai, pois não podia seguir vivendo (assim dizia, seguir vivendo) naquela incerteza. Preferia saber que meu pai havia decidido finalmente não se reunir a ela do que continuar esperando por toda a eternidade, talvez em vão. Ela me tratava por senhor. Não posso negar que aquela carta me comoveu fugazmente (isto é, enquanto a lia, e não depois), mas o conspícuo carimbo de Astúrias era algo demasiado prosaico para que eu pudesse ver aquilo tudo como algo mais do que uma brincadeira macabra. A segunda carta também foi ao lixo. Minha mulher, Marta, me viu parti-la, e perguntou:

– O que é isso que tanto tem te irritado? – Meu gesto deve ter sido violento.
– Nada, nada – eu disse, e cuidei de recolher os pedaços para que ela não pudesse recompor a carta.
Esperava uma terceira carta, e justamente porque a esperava tardou a chegar mais do que o previsto, ou me pareceu que a espera foi maior. Era muito diferente das anteriores e se assemelhava às que havia recebido meu pai durante um tempo: Mercedes me tratava com intimidade e se oferecia em corpo, não apenas em alma. “Poderá fazer o que quiser comigo”, me dizia, “o quanto imagina e o quanto não te atreve a imaginar que possa fazer com um corpo alheio, o corpo de outro. Se atendes a minha súplica de desenterrar e cremar teu pai, de permitir que ele possa se reunir comigo, não voltará a esquecer-me em toda tua vida, nem mesmo na tua morte, porque te engolirei, e me engolirá”. Creio que ao ler isto pela primeira vez ruborizei, e durante uma fração de segundo cruzou pela minha cabeça a idéia de viajar a Gijón, para estar ao alcance daquela mulher (me atrai o insólito, sou sujo no sexo). Mas em seguida pensei: “Que absurdo. Nem sequer sei seu sobrenome”. No entanto, esta terceira carta não foi ao cesto. Ainda a escondo.
Foi então que Marta começou a mudar de atitude. Não é que de um dia para o outro se convertera em uma mulher ardente e deixara de bocejar, mas foi adquirindo um interesse e uma curiosidade maiores por mim ou por meu corpo já não muito jovem, como se intuísse uma infidelidade de minha parte e estivesse alerta, ou ela própria a tivesse cometido e quisesse averiguar se também comigo era possível o recém-descoberto.
– Vem aqui – me dizia às vezes, e ela nunca havia me solicitado antes. Ou então falava um pouco, dizia, por exemplo – Sim , sim, agora sim.
Aquela terceira carta que prometia tanto me havia deixado à espera de uma quarta ainda mais que a segunda irritante à espera da terceira. Mas essa quarta não chegava, e me dava conta de que aguardava o correio diário com cada vez maior impaciência. Notei que sentia um transtorno cada vez que um envelope não levava remetente, e então meus olhos iam rapidamente até o carimbo, para ver se era de Gijón. Mas ninguém escreve de Gijón.
Passaram-se os meses, e no dia de finados Marta e eu fomos levar flores à tumba de meus pais, que é também a de meus avós e a de minha irmã.
– Não sei o que acontecerá conosco – disse a Marta enquanto respirávamos o ar puro do cemitério, sentado em um banco próximo a nosso jazigo. Eu fumava um cigarro e ela controlava as unhas estirando os dedos a certa distância de si, como quem impõe calma a uma multidão. – Quero dizer, quando morrermos, aqui já não haverá lugar.
– Em que coisas você pensa.
Olhei para longe para adotar um ar sonolento que justificasse o que ia dizer e disse:
– Eu gostaria de ser enterrado. Dá uma ideia de repouso que não dá a cremação. Meu pai quis que o cremássemos, lembra? E não cumprimos sua vontade. Devemos segui-la, eu acho. A mim me incomodaria se não cumprissem a minha, de ser enterrado. O que você acha? Deveríamos desenterrá-lo. Assim, além do mais, haveria lugar para mim quando morresse, no jazigo. Tu poderia ir ao dos teus pais.
– Vamos embora daqui, tu está me deixando doentia.
Começamos a caminhar por entre as tumbas, em busca da saída. Fazia sol. Mas aos dez ou doze passos eu me detive, olhei a brasa do meu cigarro e disse:
– Não acha que deveríamos cremá-lo?
– Faça o que quiser, mas vamos sair daqui.
Joguei o cigarro no chão e o sepultei na terra, com o sapato.
Marta não esteve interessada em assistir à cerimônia, que careceu de toda emoção e teve a mim como única testemunha. Os restos do meu pai passaram de reconhecíveis em um ataúde a irreconhecíveis em uma urna. Não achei que fizera falta espalhá-los, e, ademais, fazer isso está proibido.
Ao voltar para casa, já tarde, me senti deprimido; sentei-me na poltrona sem tirar o agasalho e acender a luz, e fiquei ali esperando, sussurrando, pensando, ouvindo o chuveiro de Marta ao longe, talvez me recompondo da responsabilidade e do esforço de ter feito algo que estava pendente desde muito tempo, de haver cumprido um desejo (um desejo alheio). Depois de um instante minha mulher, Marta, saiu do banheiro com o cabelo ainda molhado e enrolada em um roupão, que é rosa pálida. A iluminava a luz do banheiro, no qual havia vapor. Sentou-se no chão, a meus pés, e apoiou a cabeça úmida em meus joelhos. Depois de alguns segundos eu disse:
– Você não deveria se enxugar? Está me molhando o agasalho e a calça.
– Vou te molhar todo – disse ela, e não trazia nada debaixo do roupão. Iluminava-nos a luz do banheiro, ao longe.
Aquela noite foi feliz porque minha mulher, Marta, foi lasciva e imaginativa, me disse coisas bonitas e não bocejou, e me bastou. Isso eu nunca esquecerei. Não voltou a se repetir. Foi uma noite de amor. Não voltou a se repetir.
Alguns dias depois recebi a quarta carta por tanto tempo esperada. Ainda não me atrevi a abri-la, e às vezes tenho a tentação de rasgá-la sem mais nem menos, de jamais lê-la. Em parte é porque creio saber e temo o que dirá essa carta, que, ao contrário das três que me dirigiu Mercedes anteriormente, tem cheiro, recende um pouco a colônia, a uma colônia que nunca esqueci ou que conheço bem. Não voltei a ter uma noite de amor, e por isso, porque não voltou a se repetir, tenho às vezes a estranha sensação, quando a relembro com saudade e intensidade, de que naquela noite traí meu pai, ou de que minha mulher, Marta, me traiu com ele (talvez porque nos demos nomes fictícios ou criamos existências que não eram as nossas), ainda que não caiba dúvida de que naquela noite, na casa, no escuro, sobre o roupão, só havia Marta e eu. Como sempre, Marta e eu.
Não voltei a ter uma noite de amor nem voltei a me satisfazer apenas com minha mulher, e por isso também vou de putas, cada vez mais caras e apreensivas, belas travestis. Mas tudo isso pouco me interessa, não me preocupa e é passageiro, ainda que tenha que durar um pouco. Às vezes me surpreendo pensando que o mais fácil e desejável seria que Marta morresse antes, porque assim eu poderia enterrá-la no lugar do jazigo que ficou vazio. Deste modo, não teria que dar-lhe explicações sobre minha mudança de opinião, pois agora desejo que me cremem, e não que me enterrem, de modo algum que me enterrem. No entanto, não sei se ganharia alguma coisa com isso – me surpreendo pensando –, pois meu pai deve estar ocupando seu lugar junto a Mercedes, meu lugar, por toda a eternidade. Uma vez cremado, pois – me surpreendo pensando –, teria que acabar com meu pai, mas não sei como se pode acabar com alguém que já está morto. Penso às vezes se essa carta que ainda não abri não dirá algo diferente do que imagino e temo, se não me daria ela a salvação. Logo penso: “Que absurdo. Nem sequer nos vimos”. Logo observo a carta, a dobro e lhe dou voltas entre minhas mãos, e ao final acabo sempre a escondendo, ainda sem abri-la.

segunda-feira, 5 de março de 2018

O Tarô e o Caminho da Individuação

The Fortune Teller

Não é por acaso que os 22 Arcanos Maiores do Tarô são numerados. Suas cartas, perfiladas tal qual os capítulos de uma novela, retratam uma história verdadeira: a do ser humano em sua senda iniciática, repleta de experiências transcendentes e desafios que se nos apresentam como oportunidades para o autoconhecimento.
Desde a antiguidade, espalhados por distintas culturas, incontáveis são os mitos que abordam a imagem do homem colocado à prova, chamado a enfrentar perigos e resolver enigmas, a ultrapassar seus próprios limites e escolher o rumo certo nas encruzilhadas do caminho.
Foi o médico psiquiatra suíço Carl G. Jung (1875-1961), inicialmente seguidor de Freud, e que desenvolveu sua própria teoria para a compreensão do psiquismo, a psicologia analítica, quem cunhou o nome de “individuação” para esse processo ininterrupto de aprimoramento pessoal, destinado a orientar a personalidade para algo maior e transcendente, a cumprir psicologicamente o mesmo papel a que se destinavam os rituais de iniciação dos povos antigos.
A questão fulcral da psicologia junguiana esbarra num dos principais mistérios da existência, o da consciência em busca da fonte primordial, inconsciente em sua essência, de onde se desprendeu originalmente. Para Jung, o ego poderia ser comparado ao inconsciente na mesma proporção que uma ilha estaria para o oceano à sua volta. Outra analogia seria a do planeta Terra, pequenina morada da civilização humana (a consciência), comparado ao universo desconhecido no qual estamos inseridos (o inconsciente).
Jung chamou de ego o núcleo da consciência, sendo a individuação toda a busca empreendida por esta diminuta instância em direção ao presumido centro da totalidade psíquica, a abranger obviamente o mundo inconsciente. Ao ponto de fusão entre consciência e inconsciente, núcleo da personalidade total e ao mesmo tempo passagem para uma dimensão transcendente e coletiva, espécie de porta para o psiquismo universal, Jung denominou de Selbst, em inglês self, que em português melhor ainda se traduz por “si mesmo”.
O si mesmo seria o órgão regulador de todo o psiquismo, dotado de qualidades abissais que ultrapassam as dimensões do simples ego. Paradoxalmente, o si mesmo, ponto central da psique, preenche toda a sua circunferência, abarcando todos os fenômenos anímicos possíveis, a incluir portanto, os do próprio ego. Nicolau de Cusa, monge filósofo do século XV, já usara imagem semelhante ao referir-se à onisciência divina: “Deus é uma esfera cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não se delimita em parte alguma”.
As alegorias dos 22 Arcanos Maiores, ainda que veladas por intrincado hermetismo, de caráter particularmente medieval no baralho de Marselha, representam nada mais que as situações comuns, reservadas a todos aqueles que se dediquem a explorar seu mundo psicológico mais profundo. Os que partem em busca de si mesmos em geral abrem suas vidas para o amadurecimento pessoal, e sofrem experiências consideradas arquetípicas, de cunho propriamente iniciático.
Arquétipo é palavra de origem grega, primeiramente usada por Platão, a significar “padrões arcaicos” (arqui = antigo, arcaico + typos = padrão, matriz), e Jung se valeu do termo para denominar certos padrões registrados no comportamento da humanidade, que vêm sendo manifestos ao longo de sua história pelas mais diversas culturas. Embora semelhantes entre si, expressam-se pela variedade dos mitos, religiões, lendas ou folclore; e através de padrões também identificáveis em nosso mundo onírico, quer no cerne de nossos sonhos, quer sob a forma das fantasias.
O arquétipo serve, portanto, como matriz comportamental herdada por todo ser humano, como arcabouço capaz de selecionar nas experiências da vida os elementos significativos que estejam em sintonia com o processo inato da individuação. Os arquétipos, verdadeiras potências imateriais, surgem como entidades impalpáveis e incognoscíveis, mas se manifestam por meio de idéias e imagens, e vestem-se com as mais distintas roupagens de acordo com as culturas que os representam.
Neste sentido, o Tarô os simboliza amplamente, e um mergulho no mundo dos Arcanos permite-nos espelhar nossa alma. Por isso a “leitura” das cartas, quando contemplativa e dinâmica, bem pode transportar-nos para um mundo psicológico mais profundo. Percorramos juntos então, passo a passo, esta estrada pictográfica da individuação.
Comecemos pela especial figura do Louco que, exceção à regra, não se mostra numerada. O Louco, por não ter um número que lhe determine a posição, acha-se livre para ser notado em qualquer parte da jornada, podendo assumir diferentes valores em nossa vida; daí talvez ter sido preservado sob a efígie do coringa nos baralhos mais comuns. Preferencialmente o colocamos entre o tudo e o nada de Pascal, isto é, simultaneamente ocupando o início e o fim da jornada. Feito Jano dos romanos (a divindade de dois rostos que nunca se olham, voltados que estão para lados opostos), é O Louco quem sabe do porvir tão bem quanto do passado, já que se acha situado antes do primeiro Arcano, O Mago, ao mesmo que ocupa tempo posição após o último, O Mundo. O Louco confere assim ao conjunto um caráter rotativo e perene. Ao assumir duplo papel de fechar e (re)abrir o ciclo, promete a continuidade da individuação. Representa ainda uma força inconsciente, não personificada, por isso sem número, e a figura de bobo da corte expressa a ambivalência de sua função, já que os tais bobos medievais, antes de idiotas, eram sábios, quiçá os únicos capazes de falar verdades ao rei sem o risco de perder a cabeça.
O Louco nos prende assim em sua mágica, na paradoxal leitura de seu sentido. Se pode ser visto como um bobo que nada sabe sobre si, caminhando a esmo, por outro lado é ele o sábio que, tendo mergulhado no abismo de si mesmo, ressurge renascido, disposto a retomar sua senda. E não há monotonia nem repetição nesse processo; embora as experiências mais fortes sejam arquetípicas, elas são inusitadas no modo como acontecem e nos propiciam leituras sempre novas do livro da vida. Também os passos do Louco nunca são lineares, pois a individuação pressupõe voltas e rodeios até que nos aproximemos do si mesmo, ou até que tropecemos em algo e caiamos dentro dele.
A carta seguinte, O Mago, é a consciência personificada. Resulta da transformação do impulso inconsciente do Louco, agora direcionado conscientemente para o trabalho da individuação. Decididamente, O Mago é o grande herói desta jornada (ele é cada um de nós), pois a cada passo nos transformamos, conforme desfilamos pela “estrada real” dos Arcanos. Ele está em pé, é portanto ativo; e, feito aprendiz de feiticeiro opera na mesa à sua frente. Um de seus braços aponta para cima, o outro para baixo, como se nos lembrasse da primeira máxima de Hermes Trimegistrus, a ensinar que o nível humano da existência apenas reproduz o plano cósmico da vida; que somos sim manifestação da divindade, mas nem por isso privilégio algum da natureza. O homem precisa trabalhar com o que tem às suas mãos e intuir acerca do universo à sua volta para que venha a compreender-se.
Consoante os preceitos básicos da magia, O Mago posiciona-se como elo entre os planos humano e divino, surge como centro e medida de todas as coisas. Quatro objetos, dentre outros, despertam-nos a atenção. São eles a moeda e a baqueta que traz em suas mãos, além dos copos e da adaga postos sobre a mesa. Aludem claramente aos quatro naipes do baralho, ouros, paus, copas e espadas, que representam a inteireza do caminho ora descortinado. Isto porque o 4, assim como o 12, são números que por excelência expressam a totalidade, haja vista serem quatro as estações do ano e doze o número de seus meses, também as constelações do zodíaco por onde o sol passeia ao longo de um ciclo. Quatro e doze sempre nos dão a idéia de algo completo.
Jung escolheu as mandalas (nome sânscrito a designar “círculo mágico”) como símbolos da integridade psíquica, visto que são geralmente representadas por formas circulares (ou outras que insinuem a presença de um centro); de mesmo modo podemos perceber em cada um dos 22 Arcanos uma mandala oculta. No Mago ela se mostra tanto pelos instrumentos dos quatro naipes citados como pela mesa de três pés e quatro cantos, números estes cujo produto nos leva ao 12. É como se O Mago já tivesse diante de si o tesouro que deseja encontrar pelo caminho, o que, aliás, lhe permite seguir viagem mesmo que não saia do lugar onde se encontra, até porque a individuação é processo essencialmente espontâneo de nosso psiquismo.
Pois bem, tendo à frente uma senda que se desdobra em quatro caminhos, O Mago, resoluto, entende que precisa percorrer simultaneamente todos eles, sob pena de nunca alcançar a transcendência, razão pela qual se divide ele próprio no quatérnio que lhe sucede, formado pelos próximos quatro Arcanos, A Papisa, A Imperatriz, O Imperador e O Papa.
Estes representam uma diferenciação a mais da “ciência dos opostos”, já insinuada pelos braços do Mago que ligavam o em cima ao embaixo. Observemos que as quatro cartas se casam muito bem, são duas figuras femininas e duas masculinas; há da mesma forma uma dupla de imperadores e outra de sacerdotes; e é no equilíbrio de cores de suas vestes que o baralho de Marselha oculta outros mistérios. O detalhe mostra que as mulheres vestem mantos azuis sobre os vermelhos, ao passo que os homens trazem a composição contrária, com vestes vermelhas por cima das azuis. Aqui as cores também têm significado; o vermelho associa-se ao lado consciente, ao aspecto racional do psiquismo. O azul representa o inconsciente, a irracionalidade, os processos intuitivos de percepção.
Nas personagens femininas (A Papisa e A Imperatriz), a intuição prevalece sobre a razão; já na dupla masculina (O Imperador e O Papa), são os processos racionais que estão por cima. A psicologia analítica identifica, além disso, tanto o aspecto feminino no interior do psiquismo masculino, ao qual Jung batizou de anima (no caso, definido pela Papisa), bem como a relação contrária, a essência masculina no psiquismo feminino, denominada animus, no Tarô, melhor representado pelo Papa.
A Papisa é antes de tudo o complemento do Mago. Guarda tudo aquilo que lhe falta, sendo portanto o verdadeiro motor de sua busca. Se o mago é movimento, ela é repouso; se ele é ativo, ela é a receptividade em pessoa. Ele é ação; ela, reflexão. Em suma, todo o desenrolar do baralho a partir do Mago é a Papisa, pois tudo aquilo que estiver em seu caminho servir-lhe-á como complemento. A relação Mago-Papisa no Tarô é correlata do binômio Yang-Yin dos chineses; aliás não poderia faltar no esoterismo do Ocidente o arquétipo da “ciência dos opostos”.
Havendo o Mago experimentado das diferentes maneiras de perceber o mundo, e consciente da natureza interminável de seu caminho, pela primeira vez tem nítida noção das dificuldades que ainda enfrentará. Sua determinação estará sempre à prova.
Na situação arquetípica sucedânea, o herói depara-se com a encruzilhada do Enamorado, quando se encontra dividido entre duas mulheres que cobram dele uma escolha. A que está à sua direita, para a qual ele volta sua face, toca-lhe o ombro, e veste roupas predominantemente vermelhas. Representa a via racional. A outra moça, aparentemente mais jovem, vestindo principalmente o azul, toca-lhe o coração, como se quisesse despertar suas emoções, seu lado intuitivo. No alto, acima da cabeça do herói, em instância que transcende sua consciência, um anjo direciona sua seta para a via intuitiva, como se quisesse orientá-lo em sua escolha. Enfim, aí está representado o drama do livre arbítrio, capaz de atormentar a consciência com o conflito da eterna dúvida. O personagem acha-se cruelmente dividido entre o racional e o intuitivo, observe-se suas roupas listradas de azul e vermelho, além do amarelo, seu aspecto pessoal. Mas pouco importa por onde seguirá nosso herói, até porque razão e intuição encontram-se mescladas em todas as experiências da vida, apenas predominando ora esta, ora aquela. O principal é que o herói dê seu próximo passo, para que não reste estagnado em seu caminho. Siga por onde seguir, desembocará na tríade seguinte, O Carro, A Justiça, e O Eremita.
Decidindo prosseguir, O Mago experimenta a extroversão das conquistas rápidas, simbolizado pelo Arcano VII, O Carro. O primeiro terço das 21 cartas numeradas se completa. O Mago está emancipado. Destemido, deixa de ser mero neófito para amadurecer na senda, e mediado pelo senso da Justiça, virtude que será assimilada no Arcano subseqüente, chega à condição de maior introversão e capacidade introspectiva, quando descobre que há sabedoria em seu próprio poço, a ser buscada por um processo sereno e cuidadoso, como o faz o velho Eremita.
A carta X, A Roda da Fortuna, traz as vicissitudes da vida, com seus rodopios e reveses. O herói deve afinal saber tirar proveito do movimento do cosmos. “Há nas lides do homem uma maré que, se aproveitada enquanto cheia, o levará à fortuna”, diria Shakespeare.
No Arcano XI, A Força, alcançamos a metade do caminho, mas prosseguem as vicissitudes, até que O Mago perceba que, invariavelmente, ações sutis repercutem melhor do que as atitudes brutas, como nos mostra a figura intuitiva da vestal, que sob um manto azul, domina com suas delicadas mãos toda a brutalidade duma besta-fera, contendo-a pela mandíbula. A fera ocupa a metade inferior da carta, e não fosse sua cor distinta, estaria misturada ao hábito da personagem. Representa os processos instintivos, aspectos brutos que esperam ser dilapidados e transformados em algo mais sutil.
Os dois Arcanos seguintes nos trazem a experiência da morte. O Enforcado é ela própria, em seu sentido terminal. A lâmina mostra o herói dependurado, de cabeça para baixo, vendo a vida por seu outro ângulo, ou como se estivesse num ataúde, cercado por terra e troncos, os dois verticais com seus doze ramos podados, a representar o esgotamento da mandala, a morte aparente do dinamismo psíquico. Mas o herói, se sobrevive à força perturbadora deste arquétipo que dele exige sacrifícios, comunga pela primeira vez com o mundo transcendente, representado pelo Arcano XIII. Por ser o único sem nome, nem deveria ser chamado Morte. O esqueleto que ceifa sugere transformações substanciais, a troca do velho pelo novo. É um momento iniciático de fértil aprendizagem, representada pelos arbustos em quantidade que brotam neste novo campo da existência. Afinal, o 13 expressa o rompimento da mandala, a transposição da ordem; a soma de 1+3, entretanto, leva-nos de volta ao 4, à mandala de uma nova dimensão.
O Arcano XIV, A Temperança, é a terceira das quatro virtudes medievais a estar representada no Tarô. As outras três, já vistas, são a justiça (Arcano VIII), a prudência (Arcano IX), e a força (Arcano XI). Este tema é chave dos alquimistas, e o segundo terço se completa com o Mago promovido à esta condição. A Temperança se (re)vela no equilíbrio parcimonioso de seu movimento, e a figura feminina aqui traz azul e vermelho em iguais proporções.
Uma vez feito alquimista, pode agora nosso herói experimentar as provações mais duras, reservadas aos que penetram no Diabo, Arcano XV, ou na Casa de Deus, Arcano XVI.
Tais estações referem-se ao mundo sombrio, aos aspectos mais críticos de nossa personalidade, produtos que são de partes pouco exploradas ou desconhecidas de nós mesmos. O demônio nada mais faz do que escravizar a nossa consciência, prendendo-a em seu altar, exigindo de nós o auto sacrifício da extinção de nossas buscas. É por meio dele (o intelecto) que nos sentimos separados da fonte primordial. Por conta dessa mesma consciência é que podemos refletir acerca da única certeza que temos, a de nossa morte, de onde nasce uma natural angústia capaz de nos prender em temores pessoais. O Mago descobre que a única forma de evitar o demônio é enfrentá-lo! Se por um lado não devemos negar os méritos de nosso intelecto, por outro, de alguma forma, precisamos transcendê-lo.
A Casa de Deus é o arquétipo da destruição, das mudanças avassaladoras em nossas vidas. Por vezes, somente algo assim tem força capaz de nos arrastar para longe do Diabo que antes nos prendia. A Torre fulminada mostra o ego abalado pelo grito de um inconsciente incontido, simbolizado pela labareda de fogo que explode a cúpula da Torre, cuja forma lembra uma coroa, real adorno de uma consciência que se esquece muitas vezes de perceber a realidade por detrás da realeza.
O Arcano XVII, A Estrela, nos entrega à esperança. Revela à consciência libertada que a individuação continua a ser possível. Ao menos é o que representam as luzes que brilham no firmamento. A jovem desnuda não é outra senão o nosso herói, despido dos valores mundanos, a verter no rio do inconsciente coletivo suas próprias águas (azuis) de seu mundo intuitivo, de seu inconsciente pessoal. As estrelas no céu simbolizam as almas já individuadas. Pela primeira vez os 4 elementos se agrupam numa mesma lâmina: água, fogo, terra e ar estão aí representados, este último reafirmado pela presença do pássaro, símbolo da alma inclusive. De novo descobrimos a mandala disfarçada.
A Lua, Arcano XVIII, representa as trevas, os porões da alma; na psicologia junguiana será chamada de sombra. A sombra representa o lado oculto do psiquismo, fonte de inúmeros perigos e potenciais que jazem adormecidos. As trevas psicológicas apresentam sérios desafios à nossa frágil consciência, que precisará pedir ajuda à intuição para vencer a provação noturna. A Lua é receptiva, absorve a energia (as gotas) do sistema, e demarca a aproximação entre consciência e inconsciente, aqui representados pela duplicidade de símbolos, dois lobos a serem vencidos e dois templos a serem alcançados. Jung admitia que quando os símbolos se duplicavam em nossos sonhos, provavelmente estaria havendo a assimilação de valores inconscientes por uma consciência que se aprimora.
Vencida a noite negra, o Sol do Arcano XIX é quem traduz o momento áureo da jornada, quando a consciência comunga do si mesmo, inspirado instante em que ela se ilumina. A energia agora se espalha pelo sistema, e as duas crianças (consciência e inconsciente) que se tocam para cá do muro que antes as separava, descobrem-se idênticas, visto que nenhuma diferença deveria mesmo haver entre instâncias de um mesmo psiquismo. No contato mútuo das crianças, a ponte para o si mesmo se apresenta, e a iluminação preenche esta mandala.
Mas não por isso o caminho chega ao fim. Restam ainda a análise e a síntese alquímica do processo, previstos pelos últimos dois Arcanos, O Julgamento, XX, e O Mundo, XXI. Juntos simbolizam o ajuste da mandala pessoal, momento em que o herói procura reorganizar seu mundo psicológico, transformado que está por tudo aquilo que sofreu. No Mundo, a síntese (a mandala) se define claramente. O herói está liberto no núcleo da carta, em sintonia com o universo à sua volta. As figuras nos quatro cantos da carta são alusão aos quatro naipes em que se desdobra o baralho. Mas o Mundo é apenas o fechar de um ciclo. Serve para impulsionar o herói, nós mesmos, para frente. Afinal, somos sábios apenas em relação àquilo que vivemos, e completamente Loucos frente ao que nos é desconhecido.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Tristão e Isolda

Resultado de imagem para Tristão e Isolda

Quer ele vê-Ia feliz ao lado do seu novo marido? 

Pode parecer uma pergunta ingênua, mas se Tristão afirma ser motivado pelo "amor", a pergunta cabe. E mais tarde ele diz: "Quero morrer, mas que a rainha saiba que é por seu amor que morro. Se ao menos eu pudesse saber se ela sofre por mim como sofro por ela!" Que tipo de "amor" é esse que leva Tristão a desejar não a felicidade da amada, mas o seu sofrimento? Se ele acredita que ela se reconciliou com o passado e está feliz com o Rei Mark, por que vai ele voltar lá para jogar lenha no fogo da paixão? Por que ele procura renovar - lhe o sofrimento, atrapalhando sua vida com o Rei Mark? E quanto a Isolda? Que amor é esse que a leva a desprezar Tristão porque ele se casou com outra mulher? Isolda é casada com o Rei Mark e vive com ele. No entanto, por esses estranhos padrões, Tristão não pode casar-se com outra mulher, não pode amar nenhuma outra mulher; e, acima de tudo, ele não pode ser feliz. Se ele fizer uma que seja dessas coisas humanas normais, então ele é um "traidor" para Isolda a Bela! Que espécie de "amor" faz com que Isolda queira ver Tristão sempre só e infeliz, sem uma esposa, sem um lar, sem filhos? Isso não é amor. O amor é um sentimento dirigido para um outro ser humano, não dirigido para a própria paixão. O amor deseja o bem-estar e a felicidade da pessoa amada e não aquele drama enorme que se faz às custas do outro. Ainda assim, estranhamente, Tristão e Isolda chamam a isso "amor". 

Pelos padrões humanos está tudo invertido: eles se "amam", mas cada qual quer que o outro sofra, que seja infeliz. Eles falam de "traição", mas para eles "fidelidade" mútua pressupõe que o marido de uma ou a esposa do outro sejam traídos. Eles se recusaram a construir uma família e a levarem juntos uma vida humana normal, e nenhum permite que o outro consiga fazer isso com alguém mais. Tudo isso não chega a ser realmente novo para nós. Já vimos pessoas "apaixonadas" agirem dessa forma. A grande maioria dentre nós já viveu essas mesmas atitudes contraditórias. Às vezes conseguimos ser ligeiramente mais sutis, mas no mito o paradoxo aparece dessa forma tão gritante porque a mensagem brota nua e crua diretamente do inconsciente. O maior dos paradoxos é o próprio amor romântico: como um conjunto de procedimentos, ele é a fonte de onde emanam todas essas contradições. O amor romântico é a mistura profana de duas espécies sagradas de amor. Um é o amor divino do qual já foi falado: é o impulso natural que nos leva para o mundo interior, é o amor que a alma sente por Deus, ou pelos deuses, ou pelas fantasias e desejos. O outro é o amor "humano", o amor que sentimos pelas pessoas - seres humanos de carne e osso. Ambos são válidos, ambos são necessários. Mas, por algum artifício da evolução psicológica, nossa civilização misturou os dois tipos de amor na poção do amor romântico e quase pôs ambos a perder. 

O melhor do romantismo e do amor romântico é que são tentativas válidas para devolver à consciência ocidental o que havia sido perdido. O romantismo procura restaurar o sentido do lado divino da vida, a vida interior, o poder da imaginação, o mito, o sonho, a fantasia. A tragédia, que essa parte da nossa narrativa mostra, é que usa-se mau o ideal do romantismo, situa-se erradamente o amor divino, e neste processo acaba-se destruindo nossos relacionamentos humanos. Chamam de "amor" o que não é amor, invertemos o significado de "fidelidade", e perseguimos uma imagem idealizada, efêmera, da anima, em vez de amarmos um ser humano de carne e osso.

À medida que se examina algumas das terríveis complicações da tragédia em que se transforma "Tristão e Isolda", precisa-se lembrar que o amor romântico é um estágio necessário de nossa evolução psicológica. Não importa o que possa ser dito contra ele, não importa o que tenha que ser feito para consertar nosso relacionamento com ele, é o nosso caminho: a nossa maneira ocidental de evoluir e purificar essas duas espécies de amor foram misturados na poção mágica. O amor romântico é como o "túnel do amor", não podemos ficar empacados lá dentro no escuro, temos de sair do outro lado e resolver o paradoxo. Mas para os ocidentais parece ser necessário entrar no túnel. A única maneira que conhecemos de encontrar o sentimento, de enfrentar os dois grandes tipos de amor, é nos "apaixonando", é nos torturando pelo paradoxo, para então enfim aprender. Na medida em que formos avançando, e expondo as contradições, e desmascarando as ilusões, lembremo-nos de que a questão não é saber se devemos louvar o amor romântico ou condená-Io, se devemos conservá-Io ou jogá-Io fora. Nossa tarefa é fazer dele um caminho para a conscientização, viver honestamente o paradoxo e aprender a respeitar os dois mundos que existem no amor romântico: o divino, de Isolda a Bela, que Tristão persegue; e o humano, de Isolda das Mãos Brancas, que ele rejeita.

Tristão nunca chega a ter um relacionamento humano com Isolda a Bela, nunca assume os compromissos do dia-a-dia de uma vida estável, para que possam encontrar o calor humano e o companheirismo que tanto necessitam. É espantoso constatar isso quando se pensa em todos os dramas e aventuras pelos quais eles passam. Encontram-se secretamente, assumem riscos inimagináveis, são arrastados ao cadafalso, fogem e continuam seu drama na Floresta de Morois - lutando com a natureza e com os inimigos. Tudo isso, no entanto, não pode nunca traduzir um relacionamento humano!

Um dos grandes paradoxos do amor romântico é que ele jamais cria um relacionamento humano enquanto permanece romântico. Ele cria drama, aventuras ousadas, cenas de amor ardentes e maravilhosas, ciúmes e traições; mas parece que as pessoas nunca se decidem por um relacionamento próprio de seres humanos de carne e osso até que superem o estágio do amor romântico, e passem a se amar em vez de se apaixonar. Isolda a Bela é a anima. É o amor divino que Tristão procura nela; inconscientemente, ele procura uma passagem para o mundo interior. Tristão não consegue ter um relacionamento humano comum com Isolda a Bela porque ela é desejo divino e deve ser vivida como um elemento interno, um símbolo. Quando Tristão parte da Cornualha, deixando Isolda com o Rei Mark, ele cai em desespero, crê que está abandonando a anima, literalmente personificada numa mulher mortal, exatamente como fazem todos os homens quando "apaixonados". Do ponto de vista de seu ego, a vida não tem mais sentido, pois ele acha que este sentido somente pode ser encontrado em Isolda a Bela. "Separados, os amantes não podiam nem viver nem morrer, pois que era vida e morte ao mesmo tempo, e Tristão buscou refúgio para as suas mágoas nos mares, ilhas e terras estrangeiras." E assim, chega-se à famosa pergunta de Tristão: "Será que jamais encontrarei alguém que ponha um fim à minha tristeza?" Embora para o seu ego pareça a morte, o destino o conduz em direção à própria vida! Pois a tranquila e despretensiosa mulher que o aguarda no Castelo de Carhaix é a encarnação da vida humana: ela é Isolda das Mãos Brancas, Isolda da Terra. Como Tristão, tem-se esta Isolda com um fardo de preconceitos, com a lealdade já comprometida anteriormente. 

O simples não é bem vindo: "simples" significa monótono ou obtuso ou estúpido. Nós nos esquecemos de que a simplicidade é uma necessidade da vida humana: é a arte humana de encontrar sentido e alegria nas coisas pequenas, naturais e corriqueiras. No seu nível mais elevado, é a consciência que vê através das confusões que são inventadas, encontrando a realidade essencial e singela da vida. Mas em nossa época, temos um preconceito coletivo contra Isolda das Mãos Brancas. 

Se um relacionamento direto, simples e espontâneo nos oferece felicidade, dificilmente é aceito. É "simples demais", "monótono demais". Indivíduos estão condicionados a respeitar apenas o que é exagerado "pomposo, o que é grande, complicado ou "altamente excitante". A verdadeira tragédia de Tristão e Isolda está oculta num lugar quieto e humilde, onde as pessoas não estão acostumadas a olhar, e não é a morte de Tristão, pois todos os homens morrem. 

A tragédia de Tristão é que ele se recusa a viver enquanto ainda está vivo, e assim ele não tem vida humana ou valor humano. 

A história de Isolda das Mãos Brancas é a história da oportunidade perdida por Tristão quando deixa de descobrir que existem duas espécies de amor e duas espécies de relacionamento: um com a anima, no interior, e outro com a mulher, no mundo físico. Cada qual é distinto do outro e cada um tem seu próprio valor, mas se Tristão, como nós, tivesse uma segunda chance, ele aprenderia com Isolda das Mãos Brancas ao invés de rejeitá-Ia. Ele poderia aprender que o significado da vida não é encontrado apenas na busca do seu ideal interior; ele também pode ser encontrado na mulher física com a qual vive no castelo de Carhaix.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Testemunha



Era um domingo pela manhã, e o mar brilhava. Mas não brilhava da mesma maneira uniforme e lisa; ao contrário, grandes zonas iluminadas viajavam na superfície ondulada pelo vento, contrastando com a sombra que os rochedos da ilha projetavam n'água. Algas arrancadas das pedras pelo último temporal, rolavam nas marés intermitentes - e as gaivotas, há tanto tempo desaparecidas do céu imenso e branco, surgiam de novo barulhentas enchendo o ar de gritos rápidos e cortantes.

O piquenique fora combinado para depois da missa, e junto à palmeira designada para o encontro - a mais antiga, meia curva, com um tufo roxo de parasitas sobressaindo dentre os espinhos negros - duas das minhas companheiras já se encontravam. De longe, vi os seus claros vestidos correndo, saltando, na estonteante alegria que nos vinha talvez da maravilhosa paisagem.

- Liz! Liz! - gritaram assim que me viram. - O que você trouxe para o nosso almoço?

E, sem esperar resposta, puseram-se a dançar em torno de mim, saltando e batendo palmas.

- Oh, Liz, como é lindo o seu vestido! Como você fica bem de vermelho!

Coloquei no chão o pequeno cesto que eu trazia, misteriosamente coberto por um guardanapo branco. A pequena Sara, mais curiosa do que a irmã, repetiu a pergunta:

- O que você trouxe para o almoço, Liz?

- Figos e morangos - disse eu, suspendendo o guardanapo -, morangos da serra.

- Oh, eu adoro morangos! - gritou Sara, recomeçando a saltar.

Colocado o cesto junto às outras provisões, tudo bem abrigado sob a palmeira, fomos ver as raridades que já tinham achado na praia: uma estrela do mar, seca e arroxeada, algumas conchas quebradas e duas ou três substâncias gelatinosas, estranhas, frementes, de cor azulada, incerta, que ainda parecia conter os últimos lampejos da noite submarina.

- Cuidado, Sara, isto queima!

- Ui! - fez ela, abandonando violentamente a matéria, que rolou inerte ao sol. Um instante ainda quedou imóvel e azulada - depois uma onda mais forte levou-a, incorporando-a de novo ao seu indevassável mundo escuro e líquido.

- Adeus - gritou a pequena Sara para a onda que se retraía -, volte outra vez ao fundo do mar!

Continuamos as nossas pesquisas e, como a espuma nos molhasse, tiramos os sapatos. Maravilhadas, deixávamos que nossas pegadas imprimissem na areia mole. O sol, mais alto, fazia verberar intensamente toda a vasta extensão do mar.

- Não nos afastemos muito - propus eu -, talvez os outros cheguem e não nos encontrem.

De fato, outros companheiros vinham chegando: Eduardo e a irmã, Amanda e Júlia. Ao todo éramos sete e tínhamos combinado aquele piquenique para comemorarmos o início das férias. Oh, depois do longo período de estudos, como estávamos sôfregos por liberdade, ar livre, o vento e as praias! Como a ilha nos pareceu um recanto abençoado, com suas rochas, suas furnas, suas árvores, sua cabeleira verde, nativa e abençoada! Eu então, a quem a longa doença de meu pai retivera tantos meses à sua cabeceira, olhava para tudo aquilo com um verdadeiro sentimento de embriaguez. Uma energia nova despontava realmente no meu íntimo - e isenta de cuidados, tonta, feliz, eu corria de um lado para o outro, sentindo a minha alma se dilatar como se dentro dela penetrasse todo o azul do oceano. Corríamos - e tudo nos servia de pretexto para correr: uma onda maior nos assustava, uma borboleta amarela que vinha do mato e se desgarrava na praia, um avião cortando alto e nítido a imensa placidez do céu...

Sim, lembra-me que Eduardo, de joelhos sobre a erva, comia gulosamente alguns morangos furtados. Sara e Amanda tinham desaparecido ao longo da praia - só suas vozes, agudas e alvoraçadas, denunciavam o fervor das primeiras descobertas. Júlia, os cabelos batidos pelo vento, tentava escalar um rochedo demasiado íngreme para suas forças. E no centro de tudo, como um pequeno coração pulsando pela natureza inteira, eu me achava sozinha. Foi nesse instante, exatamente, que vi o homem. Estava um pouco distante e não perdia nenhum dos nossos movimentos. Era magro, alto e, menos do que sua estranha atitude de observação, o que nele me chamou a atenção desde o início foi o chocante contraste que oferecia à paisagem: não havia nada em sua pessoa que lembrasse a claridade e a alegria que nos cercava, ao contrário, vestia-se severamente de preto, e escondia mais ou menos o rosto à sombra de um chapéu também preto. Não sei porque, meu coração se confrangeu, e nesse sentimento havia algo do terror e da emoção com que havíamos contemplado minutos antes a substância gelatinosa do mar. "Talvez seja um doente, um desses tipos tão comuns que procuram o clima hospitaleiro da ilha" - pensei comigo mesmo. O certo é que, sabendo-me observada, minha alegria não foi mais tão espontânea. Corria, corria ainda fugindo das ondas que vinham se desfazer nos meus pés, revoluteava à toa pela praia - mas já agora a figura do estranho me obcecava. Lá estava ele, imóvel, no mesmo lugar. Meu Deus, jamais abandonaria aquela posição?

Pouco a pouco senti que ele exercia certa atração sobre mim e que seus olhos me fixavam de preferência. Quase sem querer, e sem saber porque o fazia, fui me aproximando aos poucos. Vi então que seu rosto era triste e severo.

- Bom dia - disse-me ele, sem dúvida esforçando-se para ser acolhedor.

- Bom dia - respondeu eu, cheia de susto, de receio e de curiosidade.

- Como se chama? - perguntou-me.

- Liz.

- Bonito nome! E vieram fazer um piquenique?

- Sim, para aproveitar a manhã.

Ao mesmo tempo que eu falava, pensava comigo mesma: "É um doente, só pode ser um doente. Nunca vi ninguém tão pálido assim..."

- E que fazem vocês, correndo?

- Oh, apanhamos conchas... estrelas do mar... coisas por aí...

Ele me fitou severamente, como se isto não fosse uma ocupação para uma menina da minha idade.

- Já tem 15 anos? - tornou a perguntar

- Daqui três dias farei...

- Ah! - e não disse mais nada.

Por um momento olhou em torno, como se procurasse meus companheiros com a vista. E de repente, com voz surda e ligeiramente trêmula, indagou:

- Não gosta de flores?

- Flores? Adoro! - respondi.

Então ele fez um sinal e mostrou-me o rochedo mais próximo:

- Ali em cima há uma, maravilhosa...

- Uma quê? - fiz eu, sem compreender.

- Uma flor, uma papoula.

Não acreditei, cheguei a rir:

- Papoulas não dão sobre as pedras...

Ele zangou-se e seu rosto se tornou muito mais sério aidna:

- Está é uma papoula especial... uma papoula azul.

Eu não sabia o que pensar e fiquei olhando-o. Talvez fosse verdade, quem sabe? Sua voz era tão fria e convincente! Como eu demorasse a responder, vi acender-se nos seus olhos um brilho de impaciência:

- Não quer vê-la?

- Quero... mas onde está?

- Por trás daqueles cactos... daqui não se vê.

Sobre os rochedos mais próximos, estranhos e solitários, cresciam gigantescos cactos que o vento do mar açoitava. Naquele minuto, não sei se acreditava ou não que existisse entre eles uma papoula azul - sei apenas que o mistério daquele homem me atraía. Acompanhei-o. Por trás de mim, ouvia as risadas de meus companheiros, que se distanciavam. O homem caminhava na minha frente, curvado, ofegante, como se tivesse pressa. Seus dedos longos, agudos, agarravam-se à rocha como garras. Não tardou muito para chegarmos ao alto - e numa rápida pausa, enquanto respirava, banhei-me na visão do mar, que se descortinava inteiro, soberano, reinando dentro de um vasto espaço de luz e de silêncio. Ao longe, passava um vaporzinho - e lá em baixo, na franja dourada da areia, Sara e Amanda corriam descalças e gritava, deviam ter achado qualquer coisa. Súbito, voltei-me: o homem me fitava com olhos estranhos.

- Onde está a papoula? - perguntei.

- Ali - mostrou-me ele.

Olhei e não vi nada, só os cactos.

- Onde?

Ele se aproximou mais, como para me mostrar a flor.

- Ali, bem ali.

Olhei de novo - e de repente senti uma dor aguda, horrível, atravessar-me o braço. Dei um grito, sem compreender o que fosse e, erguendo-o, vi com espanto que o homem tinha enterrado nele um comprido e negro espinho de cactos.

- O senhor! - exclamei com um soluço, apavorada.

Ele me fitou com olhos de que jamais me esquecerei, tão duros, tão cruéis se mostravam. Ao mesmo tempo que ele se revelava com esse olhar, não tive mais dúvida de que me achava na presença de um louco.

- Amanda! Sara! - comecei a gritar, com um fio de sangue a me escorrer pelo braço.

De um salto o homem se afastou e desceu pelas pedras, correndo. Na fuga o chapéu lhe caiu, ele o apanhou com um movimento convulso e continuou a correr, sem olhar para trás. Vi então que era completamente calvo e, fascinada, acompanhei-o com a vista até que, atravessando a zona de sol, integrou-se na sombra, onde desapareceu para sempre.

domingo, 28 de maio de 2017

Amigos

Algumas pessoas estão nas nossas vidas sem a gente saber de onde vieram. Não me lembro ao certo quando o conheci - como um membro acronológico deste corpo (um braço que a gente usa mas nunca racionaliza a existência). Sempre esteve ali. Mas nos últimos tempos a urgência de uma amizade nos aproximou ainda mais, de forma que nossos pensamentos precisavam ser compartilhados como se armazenássemos o conteúdo de esquecimento do outro nas nossas próprias pastas internas. Nunca lidamos muito bem com o silêncio. Quando não havia o que compartilhar: um vácuo aflitivo. Percebi que eu procurava me manter mais culto sobre os assuntos do mundo só pra poder compartilhá-los. Livros, música clássica, geopolítica, arquitetura, dança contemporânea... E com o passar do tempo a frustração pelos assuntos sem vida me deixava desolado, árido. Já nesse momento percebi alguma perturbação entre nós, foi quando tomei conhecimento que as trevas nunca vem em conta-gotas. O escuro não aceita meio-termo. No inexorável momento de ausência comunicativa, sentados na cama do meu quarto, meus olhos que procuravam alento em qualquer coisa se alinharam ao rosto dele e foi como se pela primeira vez eu visse aquele desenho como uma entidade viva interdependente das minhas necessidades de completude.

Foram os olhos que me chamaram a atenção num primeiro momento. Tinham o formato de uma pequena semente com uma nódoa de galáxia dentro, pequenos e velozes. De concavidade larga e baixa, eram tão escuros quanto a mancha do cansaço que se pusera abaixo de suas pálpebras. Trespassavam a qualidade do sôfrego e misterioso, carregados de segredos que eu invejava conhecer. Talvez eu tenha falado muito de mim... As sobrancelhas se arqueavam, com uma leve falha na extremidade medial, qual uma fenda no gramado escuro. Grossas e firmes, tenazes. Alguns fios revoltos atrapalhando a simetria e lhe conferindo simetria. Na sua expressão facial não era incomum que elas se erguessem, causando pequenos dobramentos na pele acima numa de suas feições mais usuais: a de inquérito. Diminuía a distância entre a região e os cabelos, dando mais harmonia entre as proporções e distâncias do seu rosto. Os cabelos eram violentamente pretos, organizados num corte comedido com um topete dianteiro. Eram lisos - nunca gostei de cabelos lisos demais, não sabia identificar se o brilho era limpeza ou sujeira. Cobriam a parte superior das orelhas, propositalmente, pois tinha vergonha de umas dobrinhas assimétricas que elas possuíam (a falta de assunto de outrora chegou nesse tópico). O nariz era astuto e arrogante, com narinas tímidas mas o dorso proeminente. A boca era pintada num carmesim delicado. O lábio superior ascendia até às fendas em ângulos perfeitamente simétricos, finos; e o inferior era uma meia-lua mais preenchida de carne. Eventualmente ele os crispava mesmo sem ter o que dizer, bebericando a si mesmo com a língua cor de fogo. Os dentes raramente se mostravam. Era natural que ele deixasse a barba crescer, mas nesse momento estava sem ela, gramínea rala e falha, e pude reconhecer algumas pequenas cicatrizes atróficas aqui e ali. Tive vontade de passar o dedo em todas elas. Mas manteve o bigode, o que o deixava com uma expressão de falsa experiência, algo entre o pseudo vintage e o cabo-de-exército. A mandíbula era larga e a parte mais importante daquele rosto. Conferia o sabor do obtuso, ácido, fazendo o mais singelo sorriso de meio-lábio ter a força de qualquer expressão que ele desejasse causar. Arrepios, suspiros, urgência.

Eu não soube carregar o peso daquele silêncio. A situação limítrofe que nos colocou diante do abismo destampou algumas caixas de Pandora, suscitando elementos maculados que eu não permitiria vir à superfície nem se custasse minha vida. Evitava ao máximo sequer racionalizá-los, tamanha a covardia. Já não me preocupava mais em ter o que dizer, me concentrava em controlar a respiração entrecortada quando ele se aproximava, daquele modo cotidiano: sempre mantendo a boa etiqueta e seguindo os roteiros, ser meticuloso que era. Já eu, nunca liguei muito para os ensaios sociais, às mascaras de boa convivência, à mecânica que regia os frívolos. Me isolei entre poesias românticas e músicas tristes, fiz outros planos mesmo sem o menor planejamento de executá-los, e em pouco tempo já não nos encontrávamos com a mesma frequência e havia um timbre de entendimento do fatídico quando nossos olhares se despediam. Fatigados, desiludidos.

A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Um abraço distante e comovido foi nosso adeus. A certeza de que não nos encontraríamos mais, senão se devotássemos o acaso. Mas também não queríamos nos rever. Na conclusão de que éramos, sim, bons amigos. Amigos sinceros.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Insônia


Sento. O peito dói o coração está doendo e quando coloco a mão é a único grave que há de som nesse quartinho minúsculo. Deito de barriga pra cima. Os olhos ao teto fixo um ponto qualquer uma rachadura preta na pintura branca que não sei desde quando está ali nem quero saber mas continuo olhando continuo olhando fixamente na esperança de qualquer coisa daquilo abrir sair uma aranha qualquer coisa. Deito de barriga pra baixo. A respiração entrecortada porque os músculos definham. Foco na respiração. Uma duas três quatro cinco. O abdome sobe e desce e sobe e desce e desde quando tenho essa barriga tão nojenta? Os pelos em volta do umbigo mais parecem um redemoinho de minhocas no entorno de um buraco tipo aquelas lagartas que só andam juntas e tem uma crosta branca. Ah como sou nojento porco imundo feio gordo sujo fedorento patético. Sujo sujo sujo sujo. Sento. As mãos em garras vão nos cabelos arranhando o couro arranhando as costas arranhando o pulso. A dor é boa. Faz companhia. Sozinho... as batidas cada vez mais velozes como que no clímax de qualquer música e vão cavalgando em vários picos daqueles traçados de coisas do coração mesmo que a gente vê quando é internado. As mãos agora em frente aos olhos molhados tremem muito e quase não consigo focar seguro uma a outra para parar de tremer mas não consigo eu não tenho controle não tenho controle de absolutamente nada e como eu queria ser preso a qualquer tipo de receitinha pra ter alguma coerência ou mesmo um jeito torpe ou qualquer de funcionar. Mas não. Sou essa coisa completamente aberrante que berra que grita pra dentro e pra fora mas ninguém ouve bate no teto no chão na parede mas ninguém ouve. Levanto e pego um copo d'água mas as mãos ainda estão tremendo tremendo tanto que ao levá-lo à boca escorre um pouco de água pela beirada e cai pelo pescoço pelo peito e morre no buraquinho nojento do umbigo. Porra de umbigo nojento. Não sei se estou com febre. Febre eu sempre tive esse suor frio que brota na testa e cada vez que o percebo o coração cavalga mais e mais e mais o que diabos está acontecendo comigo? Cerro os punhos mas não sei exatamente do quê tenho raiva se é da vida se é da morte se é do amor se é do ódio. Deve ser do ódio pois só isso eu tenho. O nariz seco passo por cima do pó que resta ali na mesa mas não há mais efeito. Não há mais efeito! Não há mais o efeito, o feito, o que foi feito? O punho cerrado tem gana tem sangue tem veia tem raiva. Deixo um pouco do sangue no buraquinho do umbigo como se o polegar e o indicador pinçados fossem um conta gotas. Quando o desfiro até a parede num murro oco a dor não liberta mais mas soco uma duas três quatro cinco. As fileiras vermelhas que escorrem na parede vão desenhando qualquer coisa e fico acompanhando o gotejar até o chão querendo que saíssem lágrimas que morressem da mesma forma mas está tudo seco. Soco uma duas três quatro cinco. Uma duas três quatro cinco. Grito de dor de pavor de medo de fúria mas ninguém me ouve ninguém nunca me ouve. Passam por mim me dirigem sorrisos me dão conselhos mas não me ouvem. Não se drogue não fume não beba não faça isso não se desespere não se mate não morra. Mas ninguém escuta caralho! Agora as mãos tremem mais e vejo carne. Vejo sangue vejo vermelho vejo branco e vejo preto. Preto de qualquer coisa meio morta porque já estou em decomposição desde que nasci daquela merda de parideira. Ajoelho no chão em cima da lambança toda porque aquilo é meu me pertence. Produto meu nascido de mim e pertencente a mim e só assim sou capaz de me circunscrever. Me circunscrevo através da dor e talvez por isso só posso me recorrer a ela quando de alguma forma não sei onde estão os limites. Eu só queria conseguir dormir...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Sol


Nos pusemos diante um do outro com o magnetismo invisível do acaso. Daquilo que tem o agridoce sabor do tinha-que-ser. O encontro enfim se deu, pariu um pequeno incômodo que coça, que se esconde na qualidade do miúdo, desejando tomar conta de tudo. Daí que esse tudo reverberou e desde então ressoa, ressoa em demasia tanta qual pude te desenhar perfeito mesmo eu de olhos fechados e te ler em segredo nas partituras do silêncio, ainda que eu só ande boquiaberto. Vejo - sem olhar - o céu tingido à laranja acima da praia, mas me equilibro no último penhasco de relevo frágil que restou na Terra, bem próximo ao Sol e todos os seus segredos. Você - o Sol. Olhar seu rosto é tão doloroso-misterioso quanto. De forma que talvez me encantei primeiro pelos seus reflexos. Quero chegar lá, mas não sei se mais do que quero querer chegar lá. Na maior parte das vezes só quero querer. Querer querer é sem dor. Não é o veneno da serpente da volúpia que me paralisa, mas o medo da prisão entre suas escamas. De forma que nesse chão esfarelado qualquer coisa pode ser peso, me fazer derrubado. Mesmo o som tranquilo da sua voz estremece. Mais ainda: não posso falar. O grito voaria às nuvens e inevitavelmente morreria porque entre nós há a distância do impossível, e o eu-lírico-poético-simbólico morreria junto. Quase não tenho falado. Eu que nunca fui acostumado à continência dos desejos, que outrora tinha feito pacto de só bradar no idioma da verdade, estou aprendendo assim tão tarde a por as paixões em grilhões e a me esconder em quartos na penumbra da melancolia quando as pernas vibram pra correr a passos largos até você. Mas há a areia, a areia molhada, as ondas e o resto dos oceanos. Dói, como se eu as acumulasse - as paixões - logo acima do diafragma, fazendo minhas respirações viverem pouco ou nada. Apenas o nariz acima da superfície e as pedras de gelo no estômago. Caio. Afundo.

Mergulhado me volto para os meus medos e desejos e traumas e sonhos. Toda a distância entre nós. Me volto ao âmago da minha arquitetura. O incômodo pruriginoso ainda está ali, emitindo tentáculos por entre minhas veias e fazendo morada no corpo todo. Tornou-se um componente. O fundo é escuro e tem cor de trevas, mas nele eu posso gritar que não saem sons. Só bolhas. Amor! Paixão! Desejo! Tesão! Inveja! Ora, que falsa-surpresa, então o incômodo era amor... Quando cristalizado se fez no meu corpo lânguido, boiei novamente, gélido. Os sentimentos só existem para o mundo quando colocados em palavras, mas às vezes a covardia de sermos nosso espelho interior congela as cordas e desafina a orquestra interna. Eu podia ver meu rosto na lâmina d'água. Quando enfim a música se inicia, e minha música tem só algumas notas de um piano velho com uma mulher cantando ao fundo, percebo então que se a música existe, o amor existe. Se o amor existe, existe. Não há necessidade de retribuição para que eu me aqueça com o seu calor. Há reciprocidade numa psicologia torta que me convence pouco, mas está tudo bem assim. Com esse amor tenho o universo, e se eu não erguer nenhuma barreira que projete sombras no meu firmamento, continuarei aquecido e o tempo fará anestesia na consciência da minha insignificância.

Mas ainda que eu possa sorrir e viver tranquilo, a confundir amores com ilusões, terei sempre inveja do céu. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Casulo


A verdade é que a medicina surgiu pra mim como uma indumentária de compensação. Eu queria usá-la como um tampão para mimetizar de alguma forma meus pecados, pecados que hoje não vejo com os mesmos olhos daquela época - tão assustados e enojados. Ora, eu, apenas uma criança... Que maturidade tem um jovem para decidir um futuro profissional inteiro? O rumo de uma vida? Claro que o que fazemos é utilizar como argumentação nossas mais abissais angústias, nossos mais assustadores pesadelos. Porque sobre minha cabeça havia apenas um desejo gigantesco de me impor, mostrar minha capacidade através do intelecto. Pelas palavras eu não seria capaz. Já haviam palavras demais vindas de todas as direções, ondas de todos os tipos, tantas opiniões fortes e personalidades já estabelecidas. E não percebia nenhum talento em mim. Eu era apenas um casulo! E quanto eu me pegava me questionando “quem sou eu?” experimentava uma das mais estranhas e vazias sensações. Ainda me sinto assim. Eu não conseguiria gritar, implorar por ajuda ou deitar a cabeça pesada no colo da Mãe e chorar aos soluços. No lugar, eu cerraria os punhos, a fronte. Estudaria com um grumo seco na garganta e certo de que, se tudo desse certo e no melhor dos cenários, eu só teria uma leve analgesia para um futuro certamente deplorável. Em que eu decepcionaria as pessoas próximas, arrancaria tristeza das figuras mais queridas e envelheceria completamente sozinho. Minguando.

As pessoas não entendem bem a homossexualidade nessa sociedade e falam disso de forma muito leviana, como se fosse uma escolha pessoal. Quando falam do assunto não se permitem alguns segundos para uma reflexão profunda, de empatia verdadeira. Existe um asco desmedido que é o óleo que faz girar as engrenagens desse roteiro tão mórbido. Sobre ser uma escolha - bom, uma escolha consciente não poderia ser, e inconsciente eu também acredito que não. Não há escolha no inconsciente, no fundo do oceano que a gente não alcança com essas boias baratas que usamos pra navegar. Como eu, na inocência tão bonita dos dez ou onze anos, poderia escolher sentir uma ereção totalmente involuntária pelos coleguinhas homens? Isso era tão absurdo como a chuva sair do solo em direção ao céu, tão absurdo quanto o fogo molhar a água. E nesse momento existe uma cisão primordial entre o desejo e o prazer que vincula o gozo à culpa, e sendo o gozo a nossa busca execrável enquanto vivos, no fim estabelecemos um contrato inexorável com a incompletude e a infelicidade. Afinal, que possibilidade existe de sermos correspondidos com qualquer migalha de amor? Cada tremor de excitação vem acompanhado pelo ácido toque da culpa. Cada masturbação antes de dormir não tinha o caráter principal de autoconhecimento, mas era sim um terror absoluto com o coração acelerado como se eu fosse o autor da morte de alguém, ou de uma família. Por que diabos eu nasci com essa maldição? Por que eu jamais poderia ser amado pelo que eu era? E os pensamentos de morte me sondavam, sim. E não estava apenas preocupado com a correspondência de um amor carnal, na verdade essa sempre foi a menor das problemáticas, mas principalmente pela não reciprocidade das relações familiares, de amizade e coleguismo. Decerto eu seria uma decepção, não importa o quanto eu adiasse isso. E não há espelho melhor para nossos anseios do que os olhos dos outros. O nosso reflexo são os olhos dos outros, existimos pelo olhar do outro. É uma ingenuidade tremenda achar que nos delimitamos por nós mesmos, que somos seres independentes de julgamentos... Por isso há tanto peso na opressão. A opressão nos desenha, e nos desenha com cicatrizes. Ou melhor, com feridas que nunca cicatrizam. Porque eu precisei anestesiar qualquer possibilidade de vivenciar o amor e toda relação eu transformava em profundas e complexas amizades. Entre alguns heterossexuais curiosos (que hoje se protegem com discursos de ódio) e outros homossexuais igualmente tristes, eu coletava algumas migalhas de afeto pra eu poder divagar mais tarde sobre futuros felizes que nunca, nunca aconteceriam. Meu espaço na vida das pessoas era sempre o de “amigo-psicólogo”, conselheiro, alguém que ocupava uma posição importante e privilegiada mas numa via unilateral que nunca vinha na minha direção. Lembro bem: nessa época eu tinha muita inveja da liberdade das nuvens...

Parecia simples a possibilidade de suprimir todos os meus desejos e estabelecer algum vínculo heterossexual para arrancar sorrisos e abraços com os três-tapinhas que carimbam o glorioso cumprimento das expectativas. Casar com uma mulher, ter filhos com ela. Hoje julgo isso tão absurdo, leviano, mas era o mundo pra mim naqueles tempos. Outra ingenuidade. Não existe nenhuma forma de silenciarmos por completo nosso desejo. E não podemos exigir isso de ninguém! Na verdade, não deveríamos ser submetidos a nenhuma tentativa nessa direção. Mesmo não tendo nenhum vínculo religioso importante e sendo criado com completa liberdade nesse sentido, é inegável como nesse cenário a demonização cristã do gozo aparecia de forma quase palpável. Ingenuidade. Ingenuidade... O desejo é uma entidade. Viva, pulsante, mutável dentro de certas possibilidades. Mas existe uma viscosidade que, ainda que lenta, permite que ele escorra por qualquer moldura que se tente imobilizá-lo. Era questão de tempo para que meu corpo se desprendesse dessas correntes que minha mente impôs (e essa dicotomia corpo e mente também se desconstruía ao mesmo tempo, se misturando no mesmo caldo que daria forma a qualquer coisa que sou hoje). Mas se as próprias relações dos adolescentes são inseguras e instáveis sobre os pretextos da “normalidade”, como imaginar algo saudável e não mutuamente sôfrego nessas condições tão inférteis? E aí, o que muitas pessoas possuem como memórias cheias de candura e saudade, se projeta na minha mente como arquivos que eu gostaria de apagar, se pudesse. E não existe essa possibilidade. Os casais vão se formando tão cedo na escola, as cobranças quanto às várias formas de virgindade se esgueirando pelos comentários mais inocentes. De forma que ano após ano eu comprava novas armaduras, me travestia de novas mentiras. Eu já estava acostumado a ser uma mentira com pernas. E se você é capaz de ler isso com algo além dos próprios olhos, vai sentir no fundo da garganta o quanto isso é profundamente triste. Dia após dia me levantar para novas farsas. Noite após noite me preparar para novas lágrimas...

Então não, não me venham com falácias. Ouço pessoas enchendo a boca para vangloriar-se de não ter preconceito nenhum e que entendem a situação e isso não é uma verdade, por mais bem intencionadas que elas possam ser. E mesmo nessas horas o egocentrismo é tão colossal que há mais uma preocupação em não levar o rótulo da homofobia do que em entender verdadeiramente a situação que a outra pessoa passou. Desconstruir-se de verdade. Não é verdade porque todo esse pano de fundo é impossível de ser visualizado com a empatia supérflua que somos ensinados a dedicar ao próximo. Não é uma questão individual. Mas do sistema, fruto coletivo e estrutural. Não pode ser verdade porque uma pessoa heterossexual, classicamente, por mais esclarecida que seja, não precisa olhar por quatro cantos com medo de apanhar enquanto anda de mão dada com a pessoa que ama. E eventualmente apanha e sente dor e sangra e morre! Não precisa viver com o manto da culpa, com o manto do “mas”, de ter que se provar, reprovar, de ter que se destacar de outras formas porque essa ponta solta arranha demais. Não deixa de ser chamada para sair com os colegas porque talvez as outras pessoas sejam incapazes de aceitá-las como são. Porque talvez os outros amigos não entendam. Não precisam passar noites de olhos abertos imaginando como os familiares e amigos mais queridos reagirão ao saberem a verdade sobre quem são. Mãe, preciso te contar uma coisa muito séria: sou heterossexual! Tsc. Não ouvem dos religiosos como sua existência é simplesmente errada, suja e pecaminosa, mesmo Jesus Cristo sendo escrito como um homem que abraçou os oprimidos, de prostitutas à leprosos. Eu tremia de medo ao dormir porque eu tinha medo de ser levado pelo capeta, porque meu destino seria ao lado de satanás, já que eu não conseguia lutar contra aquilo. Religiosos que vociferam prontamente os versículos mais escondidos da bíblia, mas não sabem amar o próximo e abraçá-lo como é, acabando, por fim, de nos retirar o direito até de experimentar verdadeiramente a fé. Podem sofrer vários dilemas próprios da atualidade, como os frutos da violência urbana, mas não unicamente por serem heterossexuais. E essas pequenas vivências dolorosas acontecem todos os dias, em quaisquer situações, durante toda uma vida. E sobre as tristes expressões como “opção sexual” e “ideologia de gênero” escondem a premissa básica e um erro fundamental de achar que no fundo toda essa tristeza é uma questão de escolha. Isso é absurdo! E quando vejo de outra forma, uma mais distante, de cima, os caminhos que a minha vida desenhou: percebo que todas as relações, destinos, tropeços e vitórias giram em torno dos nós apertados que minha sexualidade estabeleceu na minha personalidade e psique.

E daí que a medicina surgiu como uma compensação. Não era um sonho de infância, um campo florido com os cachorros travessos envolta dos filhos felizes e minha roupa branca e casta na busca infinda e altruísta de ajudar o próximo. Não, nunca foi isso. Era um teste, puramente egoísta, primordialmente autocentrado, de me estabelecer como pessoa de valor. Porque qualquer possibilidade disso me foi tirada ao longo da construção da minha identidade. De reconhecer minhas qualidades e potências, por mais estúpido e mesquinho que isso pareça. Mesquinho porque se eu pude ter acesso à medicina no ensino superior é porque tive condições de frequentar boas escolas. Meus pais priorizaram a educação e eu não precisei trabalhar, como várias crianças precisam. Fui privilegiado em vários aspectos. Se vivesse numa sociedade sem desigualdade, onde a população carente e negra tivesse o mesmo acesso e possibilidade que eu, duvido que eu seria capaz de passar sequer no vestibular. Não tenho a ilusão de muitos colegas desse estrelismo estúpido. Inclusive, foi na medicina em que conheci as pessoas mais ignorantes. Mas foi sim a forma que eu encontrei de respirar fundo, cravar minhas raízes e conseguir proferir com minhas próprias palavras: é... Eu tenho algum valor. Eu realmente existo.

O pensamento raso e romântico leva a pensar que eu não gosto do que faço e que serei um profissional frustrado. A direção é outra, viaja em outro rumo. A escolha foi tomada com os elementos mais intrínsecos do que eu sou, da fonte de onde vem toda a paixão que porventura foi reprimida ao longo dos anos. Vem do desejo que eu tinha das pessoas olharem para mim com mais candura, compaixão, amor. A escolha vem do que eu sou, do âmago de tudo. Do que eu sou! Dessa forma eu estabeleço como princípio me virar para os pacientes dessa forma, e não sentir a dor apenas intelectualmente. Estabelecer contato, vínculo sincero. Olhar para a vida de uma pessoa negra e pobre e deduzir que seus fantasmas jamais me assombraram e jamais me assombrarão. Entender os dilemas da feminilidade e não me permitir julgamentos rápidos e interpretações desonestas sobre as mulheres. Não interpretar as vivências das outras pessoas pelas lentes dos meus privilégios. Que talvez o verdadeiro fantasma seja uma pessoa na posição em que eu me coloco. E dessa forma busco levar mais humanidade e silêncio para uma profissão cheia de falas problemáticas, puramente técnicas e robotizadas, instituídas para que formas mais singelas de opressão se perpetuem.

Hoje eu entendo todas essas questões com mais maturidade e encontrei uma forma de experimentar a felicidade partindo de mim mesmo. Não peço pelo respeito das pessoas quanto a minha orientação sexual: eu exijo. Porque não acredito que eu tenho que me colocar numa posição de subjugação e clamar pela compreensão do próximo, pelo mais óbvio e negado fato: eu não tenho culpa de nada porque não existe nenhum pecado em ser homossexual. Se antigamente eu olhava com a estranheza as pessoas que se orgulhavam disso, hoje eu compreendo bem: permitiu por um lado que eu me construísse como alguém muito mais tolerante, de afeto mais fácil, e que experimenta o amor e o sexo com uma liberdade parecida com a das nuvens; de outro, me cimentou com uma armadura resistente aos mais diversos tipos de decepções e ofensas. Não me derrubo fácil. Choro pouco. Mas essa figura acanhada, triste, que mora nas sombras, cheias de medo e pavor do julgamento alheio ainda mora em algum lugar, eu não seria idiota nem desleal em ignorá-la. Em algum canto de olho, em algum abraço apertado, em alguma chateação meio sem razão. Isso nunca vai me abandonar porque vivemos num mundo absurdamente triste, que não dá espaço para que as pessoas experimentem e vivenciem sua sexualidade de forma plena e com a beleza do que é plural.

Mas persisto. Porque existo, e ninguém me tirará minhas convicções e conquistas, por menores e mais egoístas que elas sejam.